Um estudo já antigo dos economistas Ricardo Paes de Barros e Lauro Ramos estimava que, se todos os brasileiros tivessem o mesmo nível educacional, a desigualdade de renda seria até 50% menor no país.

De meados dos anos 90 – quando foi realizada a pesquisa – para cá, o país se tornou a sexta maior economia do mundo e ganhou relevância política, mas a educação parece ter ficado patinando no caminho. Ainda fazemos feio em avaliações internacionais e só conseguimos fazer com que 1 em cada 10 estudantes terminem o ensino fundamental sabendo o que deveriam em matemática. Para tentar jogar luz sobre o abismo educacional brasileiro, a EXAME.com listou uma série de soluções, das pequenas às grandes, para melhorar a educação no Brasil, a chave para um país mais competitivo.

1. Usar de modo eficiente o tempo em sala de aula

Um estudo do Banco Mundial mostrou que apenas 66% do tempo de sala de aula no Brasil é gasto efetivamente com o ensino. Outros 34% são desperdiçados com atividades burocráticas, como chamada, a cópia de deveres de casa ou pedindo disciplina. A cota de “desperdício” em países da OCDE é de apenas 15%. Usar sabiamente o tempo em sala de aula é uma das mais baratas e eficientes maneiras de melhorar a educação no Brasil.

2. Universalizar a educação de verdade

Nas últimas duas décadas, o Brasil quase conseguiu universalizar a educação pública em um processo notável e propalado pelos governantes de plantão. A palavra universalizar, no entanto, esconde ainda um montante de 3,8 milhões de crianças entre 4 e 5 anos e jovens acima de 14 anos fora da escola, segundo dados do Movimento Todos pela Educação.

3. Cooptar alunos talentosos para magistério

Em países como Finlândia e Coreia do Sul, os melhores alunos querem ser professores, até mesmo do ensino básico. No Brasil, somente os docentes de nível superior parecem manter algum prestígio como carreira.

Fazer a educação brasileira se equiparar a destes países necessariamente passará por tornar a docência do ensino fundamental e médio atrativas no país. É preciso aumentar a dinâmica da carreira para atrair uma geração mais interessada em ascender do que ficar 30 anos exatamente fazendo a mesma coisa.

4. Implantar a meritocracia para professor

Prática adotada em várias profissões com ótimos resultados, a meritocracia ainda precisa ser implantada de verdade no país, mas com cuidados. Meritocracia é um conceito amplo que deve permear todo o sistema: da escolha dos gestores aos repasses para a escola, entre outros.

5. Usar mais tecnologia

“A vantagem da tecnologia é permitir a individualização da aprendizagem, algo que a pedagogia defende há muito tempo”, afirma Denis Mizne, diretor-executivo da Fundação Lemann.

O uso mais intensivo de tecnologia, porém, não é o demagógico conceito de entregar tablets e computadores para crianças sem saber o que fazer com eles, algo que se provou um fracasso no programa Um Computador por Aluno. “O tablet é a lousa, o que vai ser escrito é que importa”, defende Mizne.

Alunos participam de atividades com livros e tablets – Escola de Ensino Fundamental e Médio Patronato Sagrada Família, Fortaleza – Ceará

6. Trocar informações dentro da rede de ensino

As notas do Ideb por escola mostram anomalias que não deveriam existir: instituições distintas que ensinam crianças da mesma idade, com mesmo perfil socioeconômico em uma mesma região arrancam desempenho díspares dos alunos.

Essa troca de informação – homogeneizando o que dá certo em uma determinada área – é obrigação para a educação brasileira, e um equalizador de qualidade fácil de ser observado e alcançado.

7. Mudar o currículo do curso de pedagogia

No Canadá, a ênfase dos professores é na ponta do processo: naquilo que ele vai ensinar em sala de aula. Aqui no Brasil apenas 20,7% das aulas é efetivamente sobre o quê ensinar, mostra um levantamento da Fundação Victor Civita. Assim, os aspirantes a docência se deparam com “História da Educação” e “Filosofia da Educação” mais do que com o que deveria ser o objetivo central da sua aula: fazer o aluno apreender tudo que for ensinado.

8. Ampliar educação técnica e profissional

O Brasil tem hoje 1,3 milhão de estudantes cursando aulas de ensino técnico. Em universidades e faculdades, são 6,6 milhões.

De 15 a 19 anos, mais de 50% dos jovens alemães têm aulas de ensino profissionalizante com a educação regular. No Brasil, ficamos em 6,6%. É preciso acelerar a reversão deste cenário, para o bem da empregabilidade dos jovens e do desenvolvimento econômico brasileiro.

9. Combater a repetência com mais reforço escolar

As taxas de repetência no Brasil são coisa séria na rede pública: a cada 100 alunos, 13 estão cursando a mesma série do ano anterior. A taxa está entre as maiores da América Latina e bem distante da de países desenvolvidos.

Uma das bases do sistema finlandês é não deixar ninguém para trás – pesquisas comprovam que a repetência é um grande desestímulo que atinge as notas do estudante por toda a vida, além de um grande incentivo à evasão – o que significa fornecer reforço escolar para um grande número de jovens, quase como uma educação paralela, com professores habilitados para esse fim, durante todo o ano. 

10. Combater a deficiência em matemática

Números são um desafio para as nossas crianças e jovens. E elas não gostam de lidar com eles. Se a dificuldade em matemática é conhecida, então deveria haver um esforço adicional para que crianças possam aprender de fato a disciplina. O Brasil precisa de engenheiros. Mas tem que começar cedo a tornar os números menos temidos pela criançada. 

11. Pais precisam acompanhar a vida escolar do filho

Mais importante que o ensino, é o incentivo familiar. Um estudo realizado em escolas latino americanas mostrou que a presença paterna está associada a um melhor aprendizado das crianças. Isso significa perguntar como foi a aula, o que está sendo feito e aprendido, estimular o filho a fazer (bem) os deveres de casa, mas nunca dar a resposta do dever, mesmo que ela seja conhecida. Pode ser surpreendente, mas há evidências de que isso pode ser mais determinante para o desempenho futuro da criança do que qualquer outra coisa.

(Leia mais sobre o papel da família e da escola na formação da criança clicando aqui.)

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Fonte: http://epoca.globo.com/vida/noticia/2014/10/importancia-da-bparticipacao-dos-paisb-na-educacao-escolar.html

12. Se for investir mais, que seja na educação básica

Para cada aluno do ensino superior, o Brasil gasta cerca de 11,7 mil dólares anualmente. Quando se chega ao ensino básico, no entanto, é que a situação fica ruim: o investimento cai para 2,4 mil dólares anuais. É sabido que nenhum investimento gera tanto retorno social e econômico quanto investir na criança: “vai demorar 20 anos para que você tenha um retorno, mas este retorno, mostram as pesquisas e evidências, é muito alto”, lembra Martin Carnoy, da Universidade de Stanford.

13. Deveres de casa mais longos

Segundo pesquisas nacionais e internacionais compiladas pelo economista Gustavo Ioschpe, fazer mais dever de casa é um belo impulsionador para o aluno, com reflexos até mesmo nas taxas de abandono. O problema é que os pais se preocupam se os filhos estão fazendo a lição, e não se ela está sendo corrigida. É preciso que os professores, para atingir o objetivo, encerrem-na com a correção. Para fixação, é melhor que sejam poucos deveres de casa, mas que exijam esforço de mais tempo, do que muitas tarefas curtas.

14. Ensinar o que se pode aprender

Muitos intercambistas brasileiros que vão cursar ensino médio ou mesmo alguma série anterior nos Estados Unidos se surpreendem com o quanto de coisa viram aqui que os norte americanos nem tinham ouvido falar. Mas as avaliações internacionais mostram que a grande diferença é que, de qualquer maneira, eles aprendem, nós não.

“Temos uma grande relutância em aceitar que o aluno não sabe quase nada”, disse o economista Cláudio de Moura Castro, especialista em educação. “E continuamos ensinando muito, como um rolo compressor. Por vezes, menos pode ser mais”.

15. Mudar o enfoque bacharelesco da educação

“A matriz educacional brasileira tem um problema que todo o conteúdo é como se todos fossem para a universidade, e 86% não vão”, critica o presidente do Senai, Rafael Lucchesi.

A parte do fato de que ainda é vergonhoso o índice de acesso ao ensino superior no Brasil, é preciso também se adaptar às demandas que o mercado de trabalho disponibiliza. E se tem algo que tem caracterizado a educação brasileira é a inércia para fazer frente aos desafios que surgem a todo instante. A lição de outros países neste segmento é clara: a universidade é um belo caminho, mas não é o único. É preciso convencer os responsáveis e os próprios cidadãos que não é preciso apontar todo o sistema apenas para isso, desde os primeiros anos de escola.

Texto retirado da EXAME.com

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