A guerra civil no Oriente Médio já resultou em mais de 80 milhões de refugiados, o maior número de refugiados de guerra desde a Segunda Guerra Mundial, de acordo com a ONU. Na Síria, são mais de 400 mil mortos pelos conflitos.

A ONU classifica essa situação como “a grande tragédia do século XIX“. Já são mais de 100 anos de guerras na região, que começaram em 1918 com a Revolta de Simko Shikak, na Pérsia, e iniciaram o seu ápice com a Primavera Árabe, em 2010, culminando nos mais recentes conflitos na Síria.

Entender os conflitos no Oriente Médio não é fácil,  além de serem conflitos históricos, fazem parte uma realidade bem distante da nossa aqui no Brasil, por isso, é normal que muitos alunos do ensino médio tenham dificuldade de compreender esse tema. Nos próximos meses, iremos fazer alguns artigos explicando este tema de uma forma simples para que você nunca mais tenha dúvidas sobre o assunto. No artigo de hoje vamos começar falando sobre os conflitos da Síria e o terrorismo, assunto bastante atual que tem tomado conta dos noticiários mundiais.

Então, senta que lá vem história!

Como tudo começou?

O Oriente Médio sempre foi palco de conflitos históricos. Uma das razões principais para isto é que lá existem poucas regiões férteis, sendo a maior parte deserto. Uma das regiões de maior fertilidade é uma faixa chamada de crescente fértil, que englobava Egito, Judeia e antiga Mesopotâmia (atualmente: Palestina, Israel, Jordânia, Kuwait, Líbano, Chipre, partes da Síria, do Iraque, do Egito, do sudeste da Turquia e sudoeste do Irã).

Por ser uma região fértil em meio a uma região de escassez, as disputas entre os povos pela área sempre foram acirradas. Nos séculos XIX, XX e XXI a região era e é , sobretudo, disputada por conta da água e, mais recentemente, petróleo.

A base dos povos que habitam essa região era tribal (Filisteus, Hebreus, Cananeus, etc.), pois os recursos limitados impediam que se formassem organizações sociais complexas: ter poucas pessoas no grupo era questão de sobrevivência.

Dentro da região do Crescente Fértil, a área mais conturbada é às margens do Rio Jordão – região também chamada de Hebrom, Canaã, Terra Prometida, Estado de Israel, Judéia, Terra Santa, Sião, e, o nome mais conhecido atualmente: Palestina. Ao longo da história, essa área foi marcada por disputas intensas e diferentes povos se alternaram no controle da região.

Judeus X Árabes

Lembra de Nóe? Segundo a história Bíblica, Noé teve três filhos: Sem, Cam e Jafé. Terá, descendente de Sem, é pai de Abraão. Abraão era casado com Sara e tinha uma outra esposa chamada Hagar. Abraão recebeu uma mensagem divina para ir para Hebrom com sua família, e Deus prometeu que Abraão seria pai de um grande povo e de uma grande nação. Como Sara já tinha uma idade avançada, Abraão decidiu ter um filho com Hagar, a quem deu o nome de Ismael. Porém, Deus instruiu Abraão para ter um filho com Sara e desta união nasceu Isaac.

E aí um novo problema estava instaurado: a herança de Abraão devia pertencer ao filho mais velho e da primeira esposa, porém o filho da primeira esposa, era o mais novo. Abraão decidiu então dividir suas posses: ele enviou Hagar e Ismael para irem para um local chamado de Península Arábica, enquanto Isaac ficou em Hebrom. Isaac teve um filho chamado Jacó, que teve seu nome mudado para Israel, e que por sua vez teve 12 filhos e seus filhos originaram 12 tribos, uma delas sendo Judá – originando o povo judeu.

Já os herdeiros de Ismael formaram o povo árabe. Ao longo dos anos, árabes e judeus entraram em conflitos pelo controle da área da Palestina.

Pausa para esclarecer alguns conceitos:

Antes de prosseguirmos, uma explicação rápida é precisa:

Quem são os palestinos?

Os palestinos são árabes que moram na região da Palestina, que compreende a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental.

Qual a diferença entre as etnias e a religião?

Existe a etnia/povo judeu e a religião judaica, não necessariamente um judeu precisa pertencer à religião judaica, nem alguém que é de religião judaica precisa ser judeu.

Já a etnia/povo árabe possui a religião do islamismo (que possui inúmeras vertentes como os xiitas, que são uma minoria radical, e os sunitas, que são uma maioria moderada). Novamente, nem todo árabe segue o islã e nem todo seguidor do islã precisa ser árabe.

Voltando ao assunto:

Como estávamos dizendo, judeus e árabes (mais precisamente palestinos), disputam a área da Palestina há anos. Essa região é reivindicada pelos judeus por ter sido ocupada por eles até a sua expulsão pelo Império Romano,  em 70 d.C., dando início a segunda diáspora (dispersão de judeus pelo mundo). Lembra que falamos que um dos nomes da Palestina é Hebrom? A Terra Prometida por Deus à Abraão e ao povo judeu? Então. Os judeus querem a Terra Prometida de volta. Por isso, após a II Guerra Mundial,  iniciou-se uma imigração em massa dos judeus em direção aos territórios da Palestina (com suporte da ONU que viu isso como uma forma de “recompensar” os judeus pelo holocausto) até então habitados por cerca de 500 mil árabes. Desnecessário falar que isso gerou novos conflitos, certo?

Em 1947, a ONU tentou apaziguar a situação fazendo uma partilha da região. Ela decidiu que seriam criados dois estados: o Judeu e o Palestino, cada povo ficaria com metade do território e Jerusalém (cidade dentro do território palestino) se tornaria uma cidade internacional. O plano da ONU falhou quando em 1948, já em meio a uma guerra civil, foi declarada a independência do Estado de Israel (que era o estado Judeu), dando início à primeira guerra árabe-israelense.

O que foi a Primavera Árabe?

A Primavera Árabe foi uma onda de revoltas populares contra os governos árabes que eclodiu em 2010/2011. A população reclamava sobretudo da crise econômica e falta de democracia (como falamos acima, são locais que estão há anos em guerras e conflitos, então tanto população quanto recursos estão desgastados por conta disso). Os países envolvidos foram Egito, Tunísia, Líbia, Síria, Iêmem e Barein. A Síria é o único desses países que até hoje ainda não conseguiu derrubar o governo.

Guerra na Síria

Felipe Castanhari do Canal Nostalgia fez uma analogia bem interessante, pedindo para imaginar a Síria como um grande colégio, governado por Bashar al-Assad desde 2000, o governo está sob controle da família al-Assad há 40 anos.

Pense na população como se fossem várias turmas desse colégio. Nenhuma turma gostava particularmente do diretor, porém como todo mundo estava passando de ano (ou seja, como a economia do país estava bem), ninguém falava nada. Até que em 2011, quando as revoltas da Primavera Árabe começaram, uma turma resolveu protestar contra o diretor, pois dizia que ele estava privilegiando alguns grupos mais do que outros. O protesto foi pacífico, mas Bashar al-Assad teve uma resposta bastante violenta. Algumas outras turmas do colégio ficaram indignadas com a violência usada e resolveram derrubar o diretor. O problema é que essas turmas começaram a se dividir em panelinhas de acordo com o que cada um achava que era melhor para o colégio, o que resultou em conflitos entre si. Ou seja: todos estavam contra todos e contra o diretor. E o diretor estava contra a população.

Essas brigas começaram a dividir a escola. O diretor cuidava da diretoria e salas dos professores, mas um grupo começou a cuidar das salas, um grupo da cantina, outro das quadras, e assim por diante. Conforme a briga foi crescendo, mais gente entrou na guerra. E quanto mais gente, mais grupos iam se dividindo conforme os seus interesses.

As brigas se intensificaram quando o grupo terrorista Estado Islâmico entrou na guerra. Pense no Estado Islâmico como o grupinho que vandaliza a escola. Qualquer pessoa que não está ao lado deles, está automaticamente contra eles. Este grupo detém hoje o controle de metade da Síria. Vale lembrar que o objetivo do Estado Islâmico é se expandir por todo Oriente Médio e instaurar a aplicação da lei religiosa islâmica, a Sharia, por todo o território. Ou seja, são três guerras que estão sendo travadas na Síria ao mesmo tempo: uma guerra pelo governo, uma guerra religiosa e uma guerra entre povos/tribos. Importante mencionar que a Síria é uma país menor que o estado do Paraná. Conseguem imaginar a gravidade da situação?

A escalação desse conflito é um pouco maior quando paramos para pensar no contexto internacional. A Rússia tem muitos negócios com a Síria e, portanto, apoia o governo. Já os Estados Unidos, desaprova o governo da Síria, e se aliou à França, Inglaterra, Turquia e Arábia Saudita no fronte contra o governo de Bashar al-Assad. Porém, o EUA também está contra o Estado Islâmico, mas a Arábia Saudita apoia o EI por questões religiosas. O que gera uma tensão grande entre esses países.

E este é o cenário atual que estamos vivendo agora. Agora você já sabe porque a região é palco de conflitos históricos e como se iniciou o conflito na Síria.

Quais outros conflitos ou assuntos históricos você gostaria de ver explicado por aqui? Conte para a gente.