Culturalmente, os trabalhos e atividades realizadas nas escolas, de modo geral, são todos propostos aos alunos de forma individual, isolada, sem a colaboração, cooperação e construção coletiva. Um exemplo de como essas atividades ocorrem de maneira frequente e histórica é a forma como as avaliações, além de tantas outras atividades, ainda continuam sendo aplicadas nas escolas: não se pode consultar o colega, o professor, as tecnologias, sob a sanção de serem “prejudicados” por essa atitude. Nada de conversar, de olhar do lado, de encontrar alternativas…

Além disso, mesas e carteiras continuam sendo adquiridas pelas escolas para organizar sua estrutura, e das salas de aula, uma atrás da outra, em filas indianas. Quando se propõem atividades em grupos, há a preocupação de que não “ocorram injustiças”, nas quais alunos que não colaboraram para a construção do trabalho tenham créditos no resultado final e na entrega da atividade. Nesse caso (e por um olhar docente não atento às inúmeras aprendizagens que podem ali emergir), extingue-se essa possibilidade voltando-se às práticas individuais e não permitindo práticas cooperativas na escola.

Sabemos que as práticas de cooperação, quando aprendidas na prática e não por meio de discursos e palavras de “assim é que se faz”, colaboram com a aprendizagem mais efetiva sobre determinados conceitos, os quais propomos para dialogar com nossos alunos e estão inscritos em currículos escolares. A forma como nos comportamos em sala de aula com nossos colegas, as práticas e posturas mantidas e utilizadas no dia a dia, proporcionam reflexos nos comportamentos das crianças. Insistir em atividades que possibilitem um pensar e um agir de maneira cooperativa nas escolas em atividades simples do dia a dia pode colaborar com eficácia para a formação de crianças, adolescentes e jovens conscientes de que é possível a construção de espaços comunitários por muitas mãos.

A palavra cooperar tem origem no latim “cooperari”, “trabalhar junto”, de ”com”, “junto, com”, mais ”operari”, “trabalhar”. Essa explicação etimológica, assim como tantas outras propostas no ensino, somente serão compreendidas quando, na prática, os alunos forem colocados em situações em que se vivencie de fato seus sentidos. A reorganização das salas de aula com carteiras coletivas, alunos sentados no chão, trabalhando juntos, troca de materiais durante as atividades, avaliações em conjunto, cada um colaborando com o que aprendeu: são algumas das situações possíveis que fortalecerão um espírito de cooperação dos aprendizes em um espaço propício para isso que é a escola. Além disso, tais estratégias de organização e consciência docente vêm ao encontro de uma expectativa que atenda às demandas de uma sociedade em constante evolução, que exige cada vez mais práticas cooperativas em todos os cenários sociais.

Trabalhar junto é muito mais que colaborar, é poder se envolver com o que se propõe ou é convidado a fazer. Os reflexos na construção de uma sociedade mais justa e cidadã, um dos grandes desejos de grande parte da humanidade, podem acontecer com o sucesso almejado a partir de práticas simples e rotineiras dos educadores nas escolas, fazendo com que as crianças, no ambiente de aprendizagem junto aos conteúdos do currículo escolar, possam vivenciar práticas cooperativas e tenham consciência da importância de se construir junto com os outros e assim também aprender com os outros nas inúmeras interações humanas.