Nélio Spréa é sócio-fundador da Parabolé – Educação & Cultura, ele é licenciado em Música (FAP), mestre e doutorando em Educação (UFPR). Autor de livros, tem como interesses de pesquisa a cultura escolar, as culturas infantis e a função das brincadeiras na formação da personalidade das crianças.

Nós fizemos para o Nélio 6 perguntas sobre o papel da cultura e da arte no fomento da educação, confira abaixo as respostas:

1. De que forma você acredita que a cultura pode revitalizar o ensino?

Nelio Spréa: A cultura pode revitalizar o ensino na forma de uma ressignificação do próprio sentido do termo. Cultura, como nos ensina o sociólogo francês Jean Claude Forquin, é a matéria-prima da educação. Neste sentido, cultura significa algo bem mais vasto do que “ser culto” e não tem a ver somente com aquilo que está nos museus, bibliotecas ou nas expressões artísticas.

Cultura são os processos de organização das nossas vidas, os valores e os hábitos, que se alteram de tempos em tempos e mudam abruptamente de acordo com a história de cada grupo social e a sua origem. A escola é um espaço onde diferentes grupos sociais se encontram. Por isso, a compreensão sobre cultura e o reconhecimento da diversidade cultural dos alunos são aspectos fundamentais para a revitalização das práticas pedagógicas. É preciso ressignificar o alcance do termo para que nele possam caber múltiplas abordagens.

2. Você tem uma palestra sobre a função social do folclore. No seu site, você menciona que “as crianças são atores sociais que alimentam tradições”.  Mas qual o impacto que as tradições, como o folclore, geram nas crianças e no estímulo a procurar mais conhecimento?

Nelio Spréa: O folclore infantil é uma tradição produzida cotidianamente e transmitida pelas crianças. As brincadeiras tradicionais são o mais significativo exemplo disso. Elas são produto da criatividade infantil e correm o mundo porque as crianças transmitem-nas aos seus pares brincando. Por isso, ganham popularidade entre diferentes gerações e podem se estender no tempo durante séculos.

O folclore infantil é uma instituição formativa, pois sintetiza valores sociais. Ele não representa apenas o passado, pois dinamiza valores e conhecimentos do tempo presente. Por meio da diversão ou da vivência artística que o folclore oferece, muitos conhecimentos são disponibilizados. São conteúdos que não fazem parte das aprendizagens formais, por isso, são pouco compreendidos nos meios acadêmicos e corporativos. Mas são essenciais à socialização e ao desenvolvimento da criatividade.

3. Quais os maiores desafios que um educador encontra em relação à cultura na sala de aula?  E como você sugere que esses desafios sejam driblados?

Nelio Spréa: 
A maior dificuldade consiste em legitimar os conhecimentos da área artístico-cultural como escolares. Muitas vezes, eles são tratados como mera recreação. Uma forma de superar isso é valorizar os aspectos reflexivos da arte, o seu potencial de fomentar a nossa sensibilidade quanto às questões mais significativas da vida em sociedade. Assim os conteúdos artísticos podem ser confrontados com outras abordagens acadêmicas.

Na arte há convergências possíveis com todas as áreas do conhecimento. Aproximar a arte das demais disciplinas poderia ser uma estratégia para superar esta descrença acerca da legitimidade do conhecimento artístico.

4. Você acha que falta, atualmente, um estímulo à aprendizagem do folclore nas escolas? Ultimamente temos visto uma supervalorização do Halloween nos colégios infantis, porém muitas vezes o explorar das nossas próprias mitologias e costumes fica de lado. A que você atribui isso?

Nelio Spréa: Percebo que falta reflexividade quando o assunto é cultura popular. É como se o folclore estivesse sempre fora da gente, sendo observado de longe porque pertence a uma cultura exótica. Esta tendência contemplativa faz com que percamos de vista a intensidade da cultura popular que nós mesmos produzimos no cotidiano.

O caso do Halloween é um exemplo de como o folclore está atrelado às práticas sociais cotidianas. Esta festa se difundiu no Brasil por meio das comemorações produzidas especialmente no contexto das escolas de inglês. Mas só se popularizou em função da forte identificação que há entre os seus elementos constitutivos e os que são típicos de nossas festas e narrativas populares.

Não vejo problema em assimilações culturais dessa natureza. Uma das forças que o folclore tem é justamente essa expansão territorial. Há narrativas e festas brasileiras que já se difundiram em outras regiões do mundo. As influências culturais alçam voo, nunca se aquietam. Cabe a nós desenvolver formas de ressignificação e fortalecimento de nossa memória cultural. A escola é um espaço onde isso pode de fato ocorrer.

5. O que o ensino deixa de ganhar quando deixa a cultura de lado?

Nelio Spréa: Perdemos de vista a riqueza de conhecimentos que as manifestações culturais disponibilizam. Esta riqueza poderia ser utilizada de modo a favorecer ainda mais os processos de aprendizagem. Uma escola que promove em suas práticas a utilização de referenciais variados amplia o conhecimento dos alunos.

Tomemos como exemplo a música. Há uma variedade muito maior de ritmos, padrões melódicos, temas e estruturas poéticas no repertório folclórico do que naquele que acessamos por meio da indústria fonográfica e das mídias digitais. O mesmo vale para outras áreas, como o teatro, a dança, a escultura, a culinária etc. Esta riqueza não pode ficar à margem dos processos de ensino na educação formal.

6. Você acha que trabalhar a cultura pode ser uma forma de estimular o aprendizado de outras matérias? Como?

Nelio Spréa: Sim. A arte põe em questão uma série de temáticas que podem ser correlacionadas em diferentes disciplinas escolares. Arte e ludicidade podem ser estratégias de fomento à aprendizagem. Mas é preciso compreender também que a arte é um conhecimento em si. Antes de servir a outras disciplinas, ela tem muito a oferecer enquanto uma aprendizagem específica.

O ensino e a promoção da arte na escola, assim como o desenvolvimento de projetos culturais, podem ser estratégias de aprimoramento das capacidades cognitivas dos alunos sem que para isso seja necessário didatizar a experiência artística. Aliás, o que há de mais rico e inovador nesta experiência é justamente o fato dela se diferenciar de todas as outras. Convertê-la o tempo todo em processo didático pode fazer com que suas propriedades se diluam. Por isso, é preciso ponderar: primeiro a arte pela arte; depois a arte como recurso pedagógico.

Não deixe de conferir também a palestra que Nélio deu sobre a experiência lúdica no processo de aprendizagem no Encontro Interestadual dos programas A União Faz a Vida e Cooperjovem 2017. Clique aqui para assistir à palestra na íntegra.

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