Jones, 2 anos, era um menino agitado e ativo que adorava esvaziar prateleiras, espalhar brinquedos pela creche e ver a educadora correr atrás dele para retomar a ordem do lugar. Instigada por informações sobre observação infantil, a educadora se forçou a olhar para Jones todos os dias com outros olhos. Ela notou, então, que a música prendia a atenção e a concentração da criança e, com isso, passou a estimulá-lo com diferentes instrumentos. Como resultado, o menino começou a passar mais tempo com a educadora lendo livros, conversando e preparando o lanche. Com isso, a imagem de garoto caótico, hiperativo e problemático deu espaço a uma nova, de uma criança curiosa, esperta e com um ótimo senso de humor.

Com as informações que você adquire ao observar, é possível selecionar os materiais certos, planejar atividades adequadas e fazer perguntas que orientem as crianças para aprender a entender o mundo que as rodeia. Isso porque cada criança lida de sua própria maneira com a aprendizagem. Logo, o olhar atento sobre os interesses, as relações, a personalidade e as interpretações das experiências das crianças são essenciais para que o educador avalie a reação à sua proposta e reveja suas práticas.

O pedagogo Gabriel Junqueira Filho, da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), alerta: qualquer projeto pedagógico está fadado ao fracasso se não houver a observação. “Não olho para uma criança como para uma tela de um museu, mas como ela responde a mim, ao que eu escolhi para ela fazer”, afirma. “A observação é o pressuposto da pedagogia porque significa querer saber a reação do outro em relação àquilo que está acontecendo entre vocês”. Nesse sentido, a observação bem feita pode ser a medida do bom desempenho de um projeto pedagógico. “Isso é absolutamente importante para pensarmos de que maneira e em que medida o projeto pedagógico teve sucesso ou não”, analisa Maristela Angotti, da Unesp.

O que observar?

É simples convencer-se de que a observação das crianças é essencial para o processo de aprendizagem. Mas de onde partir? Como ser um observador? O que observar? Alguns campos para dirigir o olhar à criança: saúde e desenvolvimento físico, temperamento, habilidades e capacidades, interesses, cultura e vida em família, abordagem à aprendizagem, uso da linguagem verbal, uso da linguagem corporal e interações sociais com adultos e outras crianças.

Se a educação infantil tem por finalidade o desenvolvimento integral dessa criança, temos de observar a criança como um todo. Isso inclui a forma como ela se movimenta, fala, observa, interage, se expressa, se relaciona com o mundo, como constrói a oralidade. E esses são apenas alguns exemplos.

A indicação dos especialistas é observar tudo, mas, segundo Junqueira, da UFRGS, a observação deve ser dirigida pelo planejamento. “Se o educador quer que as crianças desenhem, sabe que vai observar quem fica feliz com a proposta, quem não fica, quem não diz nada”, exemplifica. Depois disso, há os que fazem dois riscos e dizem ter terminado, há os que se debruçam durante um longo período, os que preenchem a folha inteira, os que se restringem a um canto do papel. Uns apertam a canetinha com força contra a folha, outros pedem que um colega faça o desenho por eles. “Se o educador estudou a atividade desenho, tudo isso é elemento para observar a criança em ação. Mas se ele não estudou nem planejou, o que vai observar? Só vai contar tempo no relógio”.

Desta forma, uma sugestão é fazer a sequência de questionamentos: qual é o projeto pedagógico? Qual é meu planejamento para colocá-lo em prática? Quais resultados pretendo alcançar? A partir disso, então, é possível criar perguntas que orientem a observação, que nada mais é do que a forma de entender o desenvolvimento de cada criança a partir da proposta e atividades realizadas.

Como organizar a observação?

Esse olhar direcionado é essencial para a observação. Mas o pedagogo Paulo Fochi, professor e coordenador do curso de especialização em educação infantil da Unisinos, alerta que é preciso buscar um equilíbrio. “Não é possível observar a partir do nada, mas também não dá para observar algo só para comprovar o que já tenho. Não é 8 nem 80”, pondera. Por isso, segundo ele, é interessante seguir o conselho dos pedagogos italianos: faça boas perguntas para observar as crianças.

Em O poder da observação, as autoras sugerem que o educador faça uma tabela dividida em três colunas, colocando na primeira o nome e idade, na segunda o que foi observado e, na terceira, o que é possível fazer sobre o que foi observado. Assim, se o objetivo é ver como uma criança lida com a separação, é interessante observá-la no momento em que se despede do familiar que a deixa na escola e, caso seja notado que a criança não reage bem à situação, uma possível solução é fazer um mural com fotos da família para fixar na sala de aula. O educador pode também adicionar um outro espaço para anotar suas interpretações e questões sobre aquilo que foi observado.

No Colégio Ofélia Fonseca, em São Paulo, por exemplo, a equipe pedagógica senta com os educadores no início do ano letivo e elabora coletivamente uma tabela de parâmetros de observação e registro baseada em pesquisadores e textos teóricos da educação infantil. Para cada item, existem três espaços para momentos diferentes de observação no trimestre. Os professores são orientados para observar como o aluno pensa para dar a resposta aos questionamentos, e não a resposta em si. “Qual pensamento, estratégia ou habilidade ele usa para dar uma resposta?”, indaga Solange Souza, coordenadora pedagó­gica do colégio. O educador observa também as parcerias feitas pela criança, como ela lida com conflito, como brinca, como comunica suas ideias, entre outros.

A tabela de observação é reavaliada constantemente pela equipe de acordo com o que é registrado como reação das crianças. O que não funciona é reformulado, e novos critérios são adicionados de acordo com a avaliação do processo feita pelos professores. “É importante sempre rever essa dinâmica. A todo momento estamos nos questionando se os dados deram uma boa base para um relatório”, afirma Solange.

Toda semana, a coordenação pedagógica faz orientações individuais com cada professor, quando a coordenadora e a educadora trocam as observações que fizeram da turma e dos alunos. Desta forma, a observação, registro e avaliação são constantes na rotina escolar, tornando possível o ajuste dos rumos a cada semana. “Coletar os dados e só interpretar no final é algo que não fazemos, porque depois de passado todo esse tempo aquilo não vale mais nada. Se eu coleto os dados é para já interferir e agir em cima deles”, afirma.

Quando observar?

Toda hora é hora de observar. Não existe um único momento adequado para o professor observar os seus alunos, todos os momentos da rotina escolar são considerados importantes. As situações de observação podem variar entre momentos espontâneos e outros planejados pelo professor.

Se o professor se atém a observar apenas aquilo que previu, em momentos específicos, perde muito do que as crianças têm para lhe contar com suas ações. Uma situação de brincadeira livre, por exemplo, é um ótimo momento para ver como as crianças se agrupam, se relacionam e tomam (ou não) iniciativa. No entanto, muitos educadores escolhem esse momento para mexer em seus diá­rios e fazer outras tarefas que os privem de olhar para as crianças. Se eu estiver mais intensamente envolvido na interação, mais naturalmente consigo observar a criança. Assim, a observação é incorporada e se torna algo natural.

Como a educação diz respeito a aprender e construir hipóteses sobre o mundo o tempo todo, é preciso que o educador esteja aberto a surpresas e, por isso, precisa exercitar seu poder de observador.

O registro e a avaliação

Na hora de registrar suas observações, no entanto, o professor precisa ser cauteloso para separar seu tempo. Se está interagindo com as crianças, não pode o tempo todo fazer anotações. O sugerível que o educador registre de acordo com a natureza da atividade. Assim, alguns momentos pedem o papel e caneta, outros um gravador de áudio e/ou vídeo e, outros mais, uma câmera fotográfica. Seja realista, não tente escrever tudo. Recomendamos se concentrar em estar presente – observar os detalhes especiais que tornam cada criança única em construir relacionamentos.

Esse momento do registro docente é essencial para reunir elementos a partir dos quais é possível promover reflexões sobre a prática do educador e entender para quê, para quem e em nome de quê se organiza essa prática profissional. Com base em uma análise crítica e reflexiva desses registros – aliada a uma atitude investigativa sobre suas práticas – é possível reorganizar essas práticas em outras bases, do ponto de vista teórico e metodológico.

Falar em avaliação na educação infantil é, na verdade, falar desse processo de acompanhamento do desenvolvimento, que acontece justamente através da observação atenta e frequente, que possibilita que o professor tenha condições de estabelecer os melhores registros descritivos. A observação é um instrumento da avaliação e planejamento. Você planeja, coloca em prática, avalia e continua planejando. No caso da educação infantil, são novos mundos que não param de se descortinar.

Fonte: Revista e Educação