“Ensinar não é transmitir conhecimento. Para que o ato de ensinar se constitua como tal, é preciso que o ato de aprender seja precedido do ato de ensinar.” – Paulo Freire

A Metodologia Freiriana, também conhecida como Metodologia Paulo Freire, é pautada na multidisciplinaridade e na educação como forma de libertação.

Você com certeza já ouviu falar no Paulo Freire (1921-1997), tido como um dos educadores mais famosos do Brasil, chegando a ser declarado “Patrono da Educação Brasileira” em 2012. Um dos seus feitos mais famosos foi a criação de uma metodologia para a alfabetização de adultos, que prometia um letramento mais rápido e eficaz. A metodologia por ele desenvolvida foi muito utilizada no Brasil em campanhas de alfabetização conscientizadora e, por isso, ele foi exilado na época da ditadura, se mudando para o Chile, onde teve a oportunidade de disseminar sua ideologia pela América Latina, e, mais tarde, para outros lugares do mundo.

A sua metodologia foi bastante testada em grupos da Universidade de Harvard e gerou reflexões não só na área da educação, mas também da saúde, intrigando médicos, terapeutas, antropólogos, cientistas sociais, entre outros.

O método cunhado por Paulo Freire foi inicialmente pensado para a alfabetização de adultos, mas existem grandes lições que podemos aprender para a alfabetização de crianças também. O primeiro passo é entender como essa metodologia funciona.

O que é a Metodologia Freiriana?

A proposta básica da Metodologia Freiriana é de proporcionar aos alunos uma leitura de “mundo” antes de uma leitura de “palavras”. Para isso, Paulo Freire estipulou 3 fases para desenvolver um pensamento crítico de mundo e, através desse pensamento, começar a ensinar a alfabetização em si.

A Metodologia é dividida em:

  1. Investigação Temática

A primeira fase do processo consiste em conhecer o aluno, saber quais suas origens, sua realidade e o seu contexto social. O professor precisa conhecer o que o aluno sabe para a partir disso poder planejar as temáticas que são trabalhadas em sala de aula. Neste processo, forma-se o universo de vocabulário do aluno.

Para Freire, todo o processo de alfabetização tem que ser pautado na experiência de vida do indivíduo. Então, por exemplo, ao invés dessa metodologia usar cartilhas para ensinar a escrever, com frases como “eu vi a viúva” e “a ave voava”, ela utiliza as chamadas “palavras geradoras” a partir da realidade da pessoas que está aprendendo. Neste contexto, um trabalhador do campo aprenderia primeiro palavras como “plantação”, “trator”, “terra”, “agricultura”, “colheita” e etc. A partir da decodificação fonética dessas palavras, é que se inicia o processo de conhecer novas palavras e ampliar o repertório. No caso de crianças, essas palavras poderiam ser, por exemplo, “carro”, “boneca”, “bola”, “fruta”, entre outras.

  1. Tematização

Esse segundo momento é focado em descobrir o significado das palavras investigadas no estágio I e, com isso, descobrir novos temas geradores. Esta é a fase onde os professores, junto com os alunos, conversam para codificar e decodificar novos temas presentes na vida de cada um.

Na tematização, ocorre a mistura de saberes prévios e científicos. Na prática, essa fase se inicia com o levantamento de um problema que vai se tornar um projeto. Por exemplo, se na comunidade da escola existe uma rua que está suja, abandonada e depredada, o professor pode propor trabalhar com o tema “ecologia e meio ambiente” e sugerir uma excursão para conhecer esse local e debater com os alunos possíveis soluções para esse problema.

  1. Problematização

Esta é a fase em que o professor vai desenvolver com os alunos uma visão crítica do problema e, de fato, realizar uma transformação no contexto. Primeiro serão definidas quais das possibilidades de solução discutidas na fase anterior podem realmente se concretizar, e, feito isso, convidar os alunos a colocarem a mão na massa e os empoderar para que eles mesmos possam mudar aquela realidade. Nas palavras de Freire:

“o professor desafia seus alunos com problematizações e não entrega conceitos prontos e acabados. A pergunta deve encaminhar para a liberdade, para a curiosidade e na busca de soluções para os problemas. Neste aspecto o professor passa a ser um mediador do processo de ensino e aprendizagem”.

No caso citado acima sobre ecologia, esta é a fase em que os alunos poderiam organizar um mutirão para limpar a rua, por exemplo.

O principal ideal defendido por Freire, é que a pessoa, seja adulto, jovem ou criança, só tem um aprendizado eficaz quando o conhecimento é significativo para eles. É preciso que a própria pessoa faça uma ação transformadora no mundo para aprender com ela.

Um bom exemplo

Ao longo dos anos, várias escolas resolveram adaptar a Metodologia Paulo Freire para o ensino das letras na educação infantil. Um exemplo de sucesso dessa adaptação foi o projeto “Minha escola, minha vida“, realizado na Escola Municipal Dr. Martim Paulucci, no município de Barbacena, em Minas Gerais.

A escola é localizada em uma comunidade periférica e essencialmente carente. No ano de 2009, as duas turmas do segundo ano participaram do projeto de alfabetização com a Metodologia Freiriana. O desejo era possibilitar aos alunos uma aprendizagem eficiente através do conhecimento de sua própria história e do envolvimento de suas famílias.

O projeto funcionou da seguinte forma: uma vez por semana um aluno recebia os colegas em sua casa. Durante essa visita, ele tinha a oportunidade de mostrar o que gostava de fazer, qual a profissão de seus pais, porque escolheram aquela comunidade para morar, há quanto tempo moravam lá e etc. Ele também mostra aos colegas seu brinquedo favorito, seu animal de estimação e seu quarto. Depois disso, os pais eram convidados para contar uma pequena história para a turma.

Alunos saindo da escola para mais uma visita.
Brinquedo preferido, animal de estimação e o quarto de algumas das crianças visitadas.

Voltando à sala de aula, as crianças eram incentivadas a relembrar de tudo que era visto e aprendiam a escrever o nome da mãe/pai do colega visitado, do animal de estimação, do brinquedo preferido e da rua onde ele morava. Além disso também foram desenvolvidas outras atividades como pintura, produção de textos coletivos, dramatizações e recontagem das histórias ouvidas. O índice de aprovação e alfabetização completa alcançado por esses alunos foi superior a 90%, provando o quanto a Metodologia Freiriana foi eficaz no processo de aprendizagem e que professores de ensino infantil podem ter muito a ganhar ao usar esse método em sala de aula.

Você conhece alguma outra metodologia efetiva na educação? Deixe sua sugestão para falarmos sobre o assunto numa próxima publicação.