O desenvolvimento emocional dos alunos é uma questão importante e que tem que ser levada muito a sério dentro da sala de aula. Convidamos o mestre em educação Marcos Meier para discutir qual a relação entre escola e família.

Marcos Meier é formado em Matemática e Psicologia. Mestre em Educação, é autor de vários livros, incluindo seu mais recente lançamento: “Desligue isso e vá estudar – orientações práticas para pais” da editora Fundamento.

01. Atualmente fala-se muito da dificuldade que os jovens têm de lidar com os seus sentimentos. Vemos jovens cada vez mais cedo enfrentando problemas emocionais graves como depressão, crise de ansiedade, síndrome do pânico, entre outras. Quais os principais fatores que você acredita estarem por trás dessa dificuldade em lidar com as emoções?

MM: Creio que o endeusamento da infância e o prolongamento da adolescência cria jovens sem resistência à frustração, já que tudo recebiam de forma fácil, sem esforço, além disso têm dificuldade de adiar a satisfação do prazer, já que recebiam tudo de forma imediata. A falta desses dois fatores os tornam frágeis e ensimesmados. Com as dificuldades normais da vida adulta, esses jovens não suportam as dores da vida e a saúde mental é afetada.

02. Você acha que a era digital tem alguma relação para o aumento dessas doenças ou que pode ter contribuído de alguma forma para laços sociais fracos? Caso sim, de que forma podemos trabalhar para chegar a um equilíbrio e usufruir de forma correta do que a tecnologia oferece de bom?

MM: A tecnologia em si mesma é neutra, mas potencializa as intenções. Quem deseja construir laços sociais pode utilizar as redes sociais como uma boa introdução às amizades, no entanto, se a pessoa não se esforçar para dar continuidade, permanece nesse “mundo” e acaba se satisfazendo com ele. Por outro lado, quem quer se manter incógnito pode “ver” o que as pessoas estão falando ou fazendo, mas sem interagir com elas. A tecnologia pode facilitar o distanciamento da realidade já que muitas pessoas apenas “bloqueiam” ou “excluem” aquelas amizades que oferecem algum tipo de dificuldade na interação, como pessoas críticas, de personalidade forte, ou apenas aquelas que têm opinião divergente. Por não suportarem a falta de bajulação, acabam não aprendendo a conviver com os opostos, o que artificializar as relações. No mundo real temos que suportar o colega chato e até dizer a ele sobre suas chatices, mas não podemos “excluí-lo”.

03. Sigmund Bauman em seu livro “O medo líquido” expõe que a velocidade com que tudo acontece hoje tem transformado as relações sociais em “líquidas”, ou seja, nenhuma relação social tem força para durar muito tempo, e essa fragilidade é o que está inserindo as pessoas em um estado constante de medo e incerteza. Você concorda com essa linha de pensamento? Caso sim, de que forma a escola poderia trabalhar para desenvolver a inteligência emocional e resgatar esses laços?

MM: É certo que muitas relações estão sucumbindo ao tempo, por outro lado outras só estão sobrevivendo por causas reais, o que antes podia não ocorrer. Por exemplo: antigamente os casamentos continuavam mesmo que houvesse traição, pois em “nome dos filhos”, “em nome da religião” ou em “nome da honra” os cônjuges se mantinham unidos frente aos olhos hipócritas da sociedade enquanto dentro de casa um abismo de gelo os separava. Hoje muitos casamentos só sobrevivem em nome do amor. Se não houver, fim. Claro que não sabemos dizer sobre as consequências disso no futuro, mas que um pouco da hipocrisia morreu, isso é fato.

A escola já sabe que não basta mais sobrecarregar os currículos com conteúdos inertes, mas ainda não sabe escolher o que realmente é importante. Por exemplo, o número de adolescentes grávidas nas periferias das grandes cidades tem aumentado assustadoramente, mas a escola que elas frequentam continua insistindo em Capitanias Hereditárias em vez de falar abertamente sobre gravidez precoce e formas de prevenção.

04. Qual a importância de família e escola trabalharem juntas no desenvolvimento social e emocional dos alunos? Quais as tarefas e limites que dizem respeito à cada uma?

MM: Há um grande equívoco sobre esse tema. Muitos acreditam que a família tem que interagir mais e trabalhar em equipe com a escola. Em parte isso é saudável, mas só em parte. A escola não pode abrir mão de sua metodologia, das pesquisas mais recentes sobre avaliação e sobre os princípios que desenvolvem autonomia e visão crítica em seus alunos para então ouvir o que a família quer independentemente se isso afeta ou não essas posturas pedagógicas. A parceria precisa existir sim, mas uma fortalecendo o papel da outra, ou seja, a escola precisa ajudar e fortalecer a relação pais e filhos enquanto a família precisa apoiar a autoridade do professor e a metodologia utilizada pela escola. Quando uma interfere no papel da outra os atritos começam a prejudicar a qualidade da educação dada às crianças. A parceria deve ser buscada pois o ganho é grande, mas os papéis devem ser claros e declarados.

05. Em uma de suas palestras, você fala sobre a autoridade dos professores e a dificuldade encontrada em sala de aula de exercer essa autoridade. Muitas vezes a falta de respeito dos alunos para com os professores é encoberta pela família, que defende o comportamento dos filhos. Qual a melhor tática que um educador/escola pode adotar frente à essa situação?

MM: Em primeiro lugar a relação professor-aluno deve ser baseada no vínculo saudável, no afeto respeitoso em que o professor incentiva, provoca e fortalece o crescimento do aluno em busca de sua autonomia. Em contrapartida, o aluno respeita e segue as orientações do professor. Essa base permite ao mestre exercer sua autoridade, pois sem ela o que ocorre é simplesmente autoritarismo e obviamente que os pais podem acabar reclamando e discordando das posturas do professor.

Como a escola é quem conhece os princípios do exercício saudável da autoridade e suas consequências no desenvolvimento do aluno, é ela que deve chamar os pais e explicar a eles tais fundamentos. A família quando compreende o que a escola está fazendo e as razões que a leva a exercer a autoridade acaba fortalecendo a escola em suas decisões. Quando a escola não explica aos pais seu modus operandi acaba abrindo espaço para críticas infundadas e para a superproteção aparecer, o que faz as crianças e adolescentes perderem qualidade no processo maturacional.

06. Você acha que o restabelecimento da autoridade do educador em sala de aula e a integração de família e escola pode ter um forte impacto na forma como conflitos são resolvidos em sala de aula? Por exemplo, essa relação auxiliaria a resolver problemas como o bullying?

MM: Com certeza uma escola em parceria com a família tem resultados muito mais efetivos na educação de suas crianças e adolescentes, pois os problemas são imediatamente detectados por ambas as partes. Mas se a família estiver “lutando” contra a escola, uma situação que poderia ser resolvida com uma simples conversa pode demorar a ser trabalhada e suas consequências podem agravar os problemas.

Por exemplo, uma família que confia na escola pode conversar com a coordenação pedagógica imediatamente quando descobre que o filho está fazendo parte de um grupo de agressores do bullying e a escola pode agir antes que a criança alvo do bullying sofra demais. No entanto, se a família acha que a escola pode “prejudicar” seu filho, essa informação jamais chega aos ouvidos dos professores ou coordenadores.

07. Quais técnicas podem ser utilizadas em sala de aula para promover um ambiente mais harmonioso e contribuir para uma aprendizagem significativa?

MM: Os professores precisam urgentemente de formação continuada em psicologia das relações ou no que chamamos de “mediação da aprendizagem”. Um mediador sabe interagir com o aluno de forma a provocar positivamente seu crescimento saudável, sua autonomia e inteligência. Infelizmente a formação universitária é incompleta nesse sentido, pois não há, na maioria dos cursos de licenciatura ou pedagogia, uma disciplina sobre psicologia que dê ao professor condições de compreender com profundidade os fundamentos das crises pelas quais as crianças e os adolescentes passam em seu desenvolvimento. Tal falta faz com que os professores experimentem técnicas baseadas em sua intuição, o que pode funcionar ou não, mas mesmo quando os resultados são positivos, a eficácia é pequena, já que não é resultado de técnicas conscientes.

Na prática podemos observar que numa mesma escola há professores que constantemente mandam alunos para fora da sala de aula encaminhados à direção ou coordenação enquanto outros professores jamais precisam tirar um aluno da sala, já que todos obedecem às orientações desses professores. Por que esses professores bem sucedidos não ensinam suas técnicas aos seus colegas? A resposta é simples: eles simplesmente não sabem explicar o que funciona e o que não funciona, pois suas posturas não são baseadas em conhecimento científico (que a universidade poderia ter desenvolvido), mas fruto da intuição ou bom senso, o que não se pode explicar facilmente. Portanto essa falta deve ser suprida com cursos de pós-graduação, palestras, congressos de educação ou grupos de estudo. Que tal apoiarmos os professores nessa missão?