Lecionei durante alguns anos em escolas públicas em cidade do interior. Poucas opções tínhamos para participarmos de eventos culturais como teatros, cinema, apresentações e exposição. Raramente surgia na cidade movimentações artísticas em que éramos convidados a participar. No entanto, sempre que aparecia a oportunidade, lá estávamos nós com nossos alunos na rua, na praça, no salão da igreja local – muito utilizado para esse fim em cidades pequenas.

Fomos convidados pela coordenação da escola para participarmos com as crianças de uma palestra que ocorreria no salão de festas da igreja do município, com o tema sustentabilidade. Receberíamos, naquela manhã, um jovem rapaz que nos falaria sobre a importância de se preservar o meio ambiente a partir de práticas do dia a dia.

Antes de sair com os alunos da escola, era preciso aquele importante momento de dar os recados, orientar sobre o comportamento e sobre as possíveis sanções em caso de não cumprimento das regras. Cada professor era responsável por sua turma e deveria sair e retornar à escola em grupos. Assim foi a orientação dada pela diretora antes de sairmos com as crianças.

Permanecemos durante aproximadamente uma hora no salão, que era muito perto da escola, e retornamos após esse tempo, depois de uma muito bem preparada aula sobre uso consciente da água e cuidados com os excessos. Como em todos os lugares onde há aglomerações de crianças, os alunos, sentindo-se livres, puderam aproveitar daquela hora de “passeio” para ultrapassarem todos os seus limites, natural em crianças quando se reúnem. Nem todas as regras foram seguidas. Nem toda a promessa foi cumprida. Entretanto, fizeram questão de serem elas mesmas. De serem crianças.

Uma das professoras, colega daquele período que também teve a oportunidade de acompanhar um grupo de alunos, retornou para a escola perplexa com o comportamento de seus alunos. Suas palavras de indignação em tom alterado. Repetia em alta voz o discurso de quem não mais levaria seus alunos para nenhum outro tipo de evento fora da escola.

– Eles não sabem se comportar! Não obedecem! Não sabem prestar atenção em palestras! – dizia ela para quem quisesse ouvir.

– Por isso mesmo é que você tem que levá-los, professora! Quanto mais eles forem a eventos como aquele, mais aprenderão como se portar diante de palestras, a obedecerem e a se comportarem.

Insistir naquilo que os alunos não fazem adequadamente é a melhor maneira de colaborar para a aprendizagem, seja qual for ela. Aprendemos a dirigir, dirigindo, na insistência. Queimamos muito bolo no forno, antes que um saia a contento. Acionamos muitas vezes o dispositivo errado daquele aparelho novo que acabamos de comprar, para um dia usarmos com destreza e habilidade. Assim é o trabalho com o ensino. A insistência é a principal estratégia capaz de colaborar para que aquele grupo de alunos seja capaz de cumprir com as ordens dadas pela escola e pela professora. Só serão capazes de prestar atenção e a ouvir atentamente uma palestra ou a uma apresentação teatral quanto mais forem levados a peças e apresentações culturais.

Vale a pena o tempo investido em saídas, em passeios e participação coletiva em ambientes externos à escola para que possamos, na prática, ensinar os valores de cidadania e coletividade, as regras de comportamentos e bem viver em grupos. Vale a pena a insistência em ensinar a ser gente do mesmo modo que ensinamos a ler, escrever, calcular, medir, localizar…