O próximo passo da escolarização é a desformatação das formas de ensinar. A ideia de que existe um conjunto de conteúdos a serem passados para os mais jovens para que eles sejam, também, capazes de reproduzi-los, há muito tempo não passa de um zumbi que atormenta corredores e salas de aula. O que o tempo presente e urgente exige é capacidade de enxergar o que não está dito, não está pronto, nunca testado.

E como deve ser o professor que vai protagonizar essa formação sem formas?

Uma coisa é certa e pode ser dita: deve ser uma pessoa culta. A palavra culta como quer se entendida aqui, está relacionada à origem agrícola do termo. Culto de quem cultiva. Enterra a semente, rega, poda, impede que a erva daninha sufoque a planta, protege do sol e da chuva, colhe e frui. Uma pessoa culta é quem é capaz de fazer de uma criança uma árvore forte, de raízes profundas e frutas sadias e saborosas, portadoras de novas sementes.

Assim, o trabalho de quem cultiva torna-se meio viabilizador da imortalidade. O culto demonstra que não há um “eu” desvinculado de um projeto coletivo, sem um manejo do passado geral, da obra de outros cultos, de seus esforços e de seus frutos. A escola precisa resgatar os discursos de cultura, não somente o retrato de seus resultados. Não a fórmula apenas, mas a história de seu criador. Não a reprodução do quadro, mas o cenário de sua composição. Não o enredo do livro, mas as angústias de seu autor. Cultivar não é um ato mecânico e nem mesmo solitário. É uma obra do mundo.

Como lembra a filósofa Judith Butler (quantos professores já ouviram falar dela?), quando o eu busca fazer um relato de si mesmo, pode começar consigo, mas descobrirá que esse si mesmo já está implicado numa temporalidade social que excede suas próprias capacidades de narração.

A escolarização precisa, de antemão, de professores cultos, capazes de cultivar, que é tarefa de muitas etapas e exige muitas destrezas. Na escola, a ferramenta do cultivo é a fala. Deve ser cheia de sementes, grávida de novidades. Um professor que apenas mostra para o aluno que leu a apostila antes dele, semeia ventos e colhe tempestades. O professor deve ser aquele que faz o aluno esquecer que ele está ali e o que o atinge é sua voz de histórias sobre números, pessoas, reações, plantas e animais, e estas histórias mexem com as histórias dentro de sua cabeça e o faz pensar que é uma pessoa diferente, dilatada por aquelas palavras. Isso é cultivo. Isso permite uma colheita farta e forte.

Como formar o professor quando ele não consegue deixar de ser algo como uma copiadora de programas e ementas, listas de exercícios e textos compilados dos manuais escolares?

Contando-lhe histórias sobre os saberes que ele não sabe. Sendo para ele como Sherazarde foi para o sultão solitário e cruel. Sendo paciente e sedutor. Não com a sedução do corpo, mas com as fantasias das histórias. Assim, os números, as fórmulas das ciências, as diferenças dos animais, as regras das línguas, os lugares da geografia, as características dos povos antigos não serão mais apenas conteúdos, matéria de prova – tão triste! – mas histórias das quais não se quer mais parar de ouvir até o dia nascer e então adia-se a morte para ouvir mais e mais histórias.

Sherazarde ganhou a vida e o reino dessa forma. Os professores poderão colher sorrisos e agradecimentos. A escola formará mentes alargadas, olhares aguçados, ouvidos refinados, paladares sutis. O aprendizado não é um resultado. É um modo de se viver.

Quando Ulisses foi jogado pelo mar na ilha dos feácios, nu e só, e foi recebido pelo rei e sua corte com roupas, descanso e alimento farto, disse: não tenho como pagar por essa hospitalidade. Tudo o que trago comigo são minhas histórias.

E assim começou a relatar sua “odisseia”…

Texto escrito por Daniel MedeirosDoutor em Educação Histórica pela UFPR e professor do Curso Positivo.