O período de quarentena que, para muitas pessoas, é visto como tragédia, na verdade é uma medida preventiva para que possamos superar a crise da COVID-19 da melhor forma possível, sem que ela assuma proporções maiores e piores. O tempo de isolamento pode ser muito bem aproveitado para resgatar o convívio familiar, a autorreflexão, meditação e criatividade, e outros aspectos de nossas vidas.

Nos últimos tempos, devido ao grande volume de novas tecnologias e bombardeio de informações, parece que vivemos constantemente ansiosos e perdemos um pouco da nossa disciplina e organização para fazer as coisas com qualidade, na quantidade e no tempo necessário.

Analisando o contexto mundial atual, sugerimos, especialmente para quem tem filhos em idade escolar, a aplicação da metodologia de projetos para viver os próximos dias do Fica em Casa transitando pelos quatro pilares da educação: 

  • Aprender a aprender 
  • Aprender a fazer 
  • Aprender a ser  
  • Aprender a conviver

A metodologia de projetos é a base central do Programa A União Faz a Vida (PUFV), principal ação de educação do Sicredi. Ela consiste em dois momentos distintos e interdependentes: a Expedição Investigativa (que se constitui numa experiência de exploração de elementos significativos que darão origem ao próximo momento) e o projeto em si.

Saiba mais sobre o PUFV e sua metodologia de projetos clicando aqui.

Assim, depois de viver um dia ou mais com os pequenos virando a casa do avesso ou passando o dia todo em frente a TV ou no celular, siga os seguintes passos da metodologia:

Primeiro momento: Expedição Investigativa

Neste momento, um bom roteiro a ser seguido é:

Reunindo a família

Após um dia ou um determinado período, reúna todas as pessoas da sua casa e, confortavelmente sentados e com os aparelhos eletrônicos desligados, façam uma roda de conversa para relatar, com a maior riqueza de detalhes possível, as atividades que fizeram, tentando quantificar o tempo que gastaram ou ficaram em cada atividade.

Dica 1 – Uma pergunta que ajuda a direcionar a conversa é: o que fiz e como me senti hoje? Todos os integrantes da roda devem falar e serem ouvidos.

Estruturando as ideias

Organizar um espaço com folha de papel, cartolina, papel jornal ou um quadro com giz, para anotar com palavras-chave a fala de cada pessoa.

Dica 2 – Se todos souberem escrever, essa parte pode ser feita individualmente anotando cada um na sua folha. Também podem ser feitos desenhos ou mapas mentais, nesta etapa – o ideal é que cada um se sinta estimulado a se expressar da forma que souber ou considerar melhor

Sintetizando as respostas

Todas as respostas devem ser sintetizadas e classificadas por categorias. Por exemplo: muito importante; menos importante; muito gostosa; menos gostosa. Sinta-se livre para usar sua imaginação. 

Dica 3 – Essa classificação deve ser escrita por uma só pessoas e ficar exposta onde todos possam vê-la. 

Dica 4 –  Ao construírem esta classificação, é ideal também discutir e argumentar por que acham que é importante ou não, por que é gostoso ou não, por que é necessário ou não, por que é saudável ou não… 

Dica 5 – Relacionar à atividade qual foi o tempo gasto em cada uma das ações diárias. Isto contribui para observar que pode-se ter gasto muito tempo com coisas menos importantes e ter gasto pouco tempo com coisas muito importantes.

Percebendo a qualidade do tempo

O tempo para essa roda de conversa não deve ser aligeirado e, se necessário, pode ser dividido em várias partes. 

Dica 6 – Os adultos devem entender que o tempo investido nessa atividade é um tempo riquíssimo de aprendizado para todos e pode se tornar uma contação de estórias reais e imaginárias, que favorecem a aprendizagem da arte da argumentação oral ou escrita, assim como habilidades de desenho e coordenação motora fina, saber ouvir e respeitar sua vez de falar, a convivência em grupos.

Explorando o espaço

Após a realização da primeira etapa e, agora com um pouco mais de consciência do que é importante, necessário, prazeroso e saudável, o próximo passo é organizar uma investigação na casa para encontrar entre as coisas guardadas na estante, armários, caixas, gavetas e no próprio fundo do quintal algum livro, material, brinquedo esquecido ou sucatas que possam fazer parte de um projeto de atividades. 

Neste momento, também é possível pesquisar na internet e em livros disponíveis, ou mesmo relembrar atividades e brincadeiras que possam ser realizadas ou que possam ser adaptados ao espaço de  sua casa ou quintal, aliados aos materiais encontrados. 

Dica 7 – Utilizar a imaginação para fazer a adaptação dos materiais e espaços, lembrando que a todo momento deve haver diálogo entre os integrantes do grupo e as decisões devem ser sempre da maioria – veja que até agora, aparentemente ninguém brincou, mas muitas atividades educativas foram realizadas: pesquisa, exploração, classificação, análise, argumentação, criação e síntese, por exemplo.

Segundo momento: desdobramento do projeto 

Concluída a expedição investigativa, o próximo passo é colocar em prática o projeto. Esta fase divide-se em 3 momentos denominados: Índice Inicial, Índice Formativo e Índice Final. Olha só como se desdobram cada um deles: 

Índice Inicial

Primeiro passo

Diante da síntese e dos conceitos discutidos, dos materiais explorados e das ideias construídas em todas as etapas da expedição investigativa, agora é a hora de planejar conjuntamente os próximos dias do seu projeto Fica em Casa. 

Dica 8 – Tomar como ponto de partida as perguntas: o que podemos continuar fazendo das atividades que fazíamos antes de começar a conversa? Como podemos melhorá-las? O que podemos incluir de atividades novas?

Segundo passo

Monte um cronograma de atividades a serem realizadas por dia, estabelecendo uma prévia de horário para cada atividade, incluindo refeição e horário de dormir. 

Dica 9 – Os adultos devem conversar com os pequenos para que eles possam entender que tem coisas que não são gostosas, mas são necessárias, e tem coisas que são gostosas, mas não podem ocupar tempo excessivo. 

Dica 10 – Os adultos, sem imposição, mas de forma mediada por eles, devem atentar para que haja equilíbrio entre as atividades de dormir, alimentar, tempo de uso dos eletrônicos, leitura de livro físico, escrita, desenhos, práticas esportivas, brincadeiras, tarefas de casa e tarefas da escola.

Índice Formativo

Aqui é a hora de realizar a adequação dos materiais, organização dos espaços e execução das atividades. 

Dica 11 – Perceba que quase todas as coisas como materiais, brinquedos e jogos têm em comum alguns elementos que podem ser pesquisados: nome, origem, características, função, variações conforme o contexto e cultura. Os dados pesquisados podem ser manipulados e socializados no grupo. Lembrando que o planejamento e a execução envolve a participação de todos, seja adulto ou criança. 

Após um tempo de prática (realização das atividades), deve-se realizar novas rodadas de conversa para avaliar e realinhar o planejamento. Entretanto, qualquer mudança desejada deve ser estudada e decidida pela maioria. É importante, também que haja sempre espaço para que cada um exponha, escreva, desenhe ou fale a respeito de como se sentiram ao realizarem as tarefas. Esse momento pode ser no final de um dia ou a cada 3 ou 4 dias.

Índice Final

Quando a quarentena ou isolamento chegar ao fim, uma nova e ampla roda de conversa deve ser feita para avaliar o período que ficaram em casa. 

Dica 12 – Juntos respondam às perguntas: 

  • O que foi positivo? 
  • O que foi negativo? 
  • O que podemos ou queremos continuar fazendo, mesmo sem a obrigação do isolamento?

O objetivo aqui é avaliar os ganhos pessoais e coletivos.

Nem só na quarentena o Fica em Casa vai te ajudar!

Esta metodologia pode ser usada com qualquer número de pessoas, independentemente de idade. É claro que, se realizado com crianças bem pequenas que ainda não falam ou escrevem, o adulto ou os adultos debatem e direcionam as atividades para as necessidades diagnosticadas das crianças, adequando-as ao tempo, espaço e material disponível. 

Outra coisa, não se esqueça de registrar tirando fotos ou filmando alguns momentos das rodas de conversa e das atividades, além de guardar os materiais produzidos para que se constitua um registro histórico desse período que estamos passando, você também pode nos enviar para que possamos estimular mais pais e mães a adotarem esta prática benéfica para a educação em casa. 

Curta este momento necessário de reclusão para aprender e ensinar com a sua família!

 

Texto adaptado pelo Prof. Me. Luiz Gonzaga de Melo – Assessor Pedagógico do Programa A União Faz a Vida há 8 anos, que possui graduação em Educação Física e mestrado em Educação pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), com foco na formação docente. 

Com mais de 18 anos de experiência como diretor de escolas estaduais, é autor de diversos artigos científicos e de opinião, do livro Podemos ser Melhores e coautor do livro Educação Física Escolar e Formação de Professores. Pesquisador independente de temas como formação docente, práticas pedagógicas ativas e neurociência aplicada à aprendizagem.

Fale com o autor: luizgmelo54@gmail.com

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