A Revolução Farroupilha foi a mais longa guerra civil do país. Nos seus 10 anos de duração – entre 1835 e 1845, a revolta que se baseou num conflito de ideologias políticas entre os Liberais da então província de São Pedro do Rio Grande do Sul contra o Governo Imperial do Brasil, defendia a possibilidade de maior autonomia às províncias, em oposição às opressões impostas pelo modelo de caráter unitário estabelecido pela constituição de 1924.

Nesse artigo você encontrará informações referentes à:

  • Como e por que aconteceu a Revolução Farroupilha?
  • O início da Revolução Farroupilha
  • A conquista de Porto Alegre
  • O avanço dos farroupilhas
  • A prisão de Bento Gonçalves
  • O declínio da Revolução Farroupilha
  • O tratado do Poncho Verde e o fim da Revolução Farroupilha
  • Curiosidades

Como e por que aconteceu a Revolução Farroupilha?

O século XVIII é considerado o Século das Luzes, no qual os ideais de liberdade, progresso, tolerância, fraternidade e governo constitucional foram defendidos acima da monarquia absolutista. Com berço na França, esse movimento que ficou conhecido como Iluminismo se expandiu por toda a Europa, até chegar às Américas.

Quando as ideias iluministas chegaram ao Brasil no início do século XIX, os burgueses do país passaram a ver na monarquia brasileira um obstáculo para os avanços econômicos, para a igualdade de todos perante a lei, à livre iniciativa e o direito à propriedade privada. A partir disso, instauraram-se no Brasil diversas revoltas regionais – conhecidas como Rebeliões Regenciais, para lutarem contra o modelo imperial vigorante na época. A do Rio Grande do Sul foi a Revolução Farroupilha.

Os ideais de federalismo e autonomia encantaram a elite brasileira e ganharam muita força na província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Com um histórico recente de vivência em guerra devido às defesas das fronteiras, da distância geográfica do poder central – Rio de Janeiro, condição privilegiada como produtor de alimentos, além dos impostos elevados submetidos ao Império, o estado gaúcho se revoltou com a submissão imposta pelo governo brasileiro.

O início da Revolução Farroupilha

O principal agravante que deu início à Revolução Farroupilha foi a decisão do Governo Central de baixar os impostos referentes à importação de charque estrangeiro. Pois, diferentemente de outras províncias nacionais que tinham sua produção de mercadorias primárias voltadas ao mercado externo, como o café e o açúcar, no Rio Grande do Sul as produções eram direcionadas majoritariamente para o consumo interno. Sendo os principais produtos o charque e o couro, ambos com tributações altas.

O charque era produzido principalmente para a alimentação dos escravos africanos que atuavam em atividades mineradoras em Minas Gerais e nas plantações de cana-de-açúcar e fazendas de café da região sudeste. Isso tornava essas províncias dependentes das atividades agropecuárias, supervalorizadas, desenvolvidas pelo Rio Grande do Sul.

No entanto, o preço do charque rio-grandense era muito mais caro do que o charque da Argentina e Uruguai. Por esse motivo, os estancieiros do sul do Brasil exigiam do Governo central uma tributação elevada para a importação dos produtos da concorrência estrangeira, o que não era do agrado dos demais compradores brasileiros, uma vez que com isso sua lucratividade seria reduzida por meio de gastos maiores para a manutenção de escravos.

Outro fator relevante para o início da Revolução Farroupilha é que o Rio Grande do Sul nunca foi uma Capitania Hereditária no período colonial. Com isso, a idéia de poder e autonomia dos estancieiros locais eram exercidas na maior parte das vezes como defesa de seus próprios ideais e territórios, muitas vezes conflitando com os representantes militares da Coroa.

Com o enfraquecimento da moral do Império na região, devido à derrota na Guerra da Cisplatina, na qual a área territorial do Uruguai deixou de fazer parte do Brasil, somado ao fato da elite rural gaúcha estar insatisfeita com a regência da Coroa, o movimento que passou a ser chamado de República Rio-Grandense decidiu se rebelar contra o Império, dando início à Revolução Farroupilha.

A conquista de Porto Alegre

Em 1835 o descontentamento dos estancieiros, industriais do charque, liberais e militares locais estavam aflorados na província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Eram articuladas reuniões particulares nas casas de nomes importantes para a região, nas quais discutiam-se as questões referentes aos mandos e desmandos do Império sobre os territórios e produções gaúchas. Nesses encontros, Bento Gonçalves, um estancieiro-soldado de grande prestígio entre os demais, destacou-se como um dos líderes do movimento que deu origem à Revolução Farroupilha.

Naquele ano, o Império nomeou Antônio Rodrigues Fernandes Braga como o presidente da província. No entanto, o presidente começou a desagradar os interesses defendidos pelas bandeiras locais, à luz dos ideais iluministas. Apesar de ser rio-grandense, Fernandes Braga acusou o movimento Farroupilha de planejar a separação entre Rio Grande do Sul e Império, para após unirem-se ao Uruguai.

Em 18 de setembro de 1835, em uma reunião entre líderes da província, ficou decidido por unanimidade que a partir da união das forças militares dos grandes estancieiros locais, marchariam para Porto Alegre, onde destituíriam o presidente provincial Fernandes Braga. No dia 20 de setembro, as tropas farroupilhas seguiram para a capital e tomaram a cidade. Após a vitória, Bento Gonçalves deu posse ao vice-presidente Marciano Ribeiro como presidente da província.

O avanço dos Farroupilhas

Em poucos dias a maior parte do Rio Grande do Sul já estava em mãos farroupilhas, apenas as cidades de São Gabriel, Rio Pardo e Rio Grande permaneciam em poder do Império. No ano de 1936, com Porto Alegre ainda sob comando dos farroupilhas, Bento Gonçalves proclamou a República do Piratini. Na mesma época, o atual governante, o regente Feijó, que comandava o Império brasileiro, nomeou José de Araújo Ribeiro como presidente da província do Rio Grande do Sul e o incumbiu de reconquistar o domínio da capital – que aconteceu em 15 de julho daquele ano.

Os conflitos políticos deram espaço para a primeira grande batalha entre imperiais e republicanos somente em setembro de 1936. O General farroupilha, Antônio de Souza Netto, venceu as tropas do império na Batalha do Seival. Netto era um dos nomes mais influentes na defesa da liberdade dos escravos do Rio Grande do Sul e, aliado aos seus lanceiros negros, foi responsável por uma das mais brilhantes vitórias dos republicanos na Revolução Farroupilha. A partir do entusiasmo dessa batalha, Netto foi instigado pelos republicanos a instaurar a República Rio-Grandense, que emancipava o estado gaúcho do restante do Brasil.

O caráter revolucionário que alcançou a Revolução Farroupilha a partir disso, deu novos rumos ao levante dos republicanos. A medida que libertaria a todos os escravos que se alistassem às tropas foi essencial para dobrar o número de soldados que avançavam pela defesa do Rio Grande do Sul.

A prisão de Bento Gonçalves

Um mês após a vitória de Netto, os republicanos foram derrotados pelas forças imperialistas na Batalha do Fanfa. Nesse embate, Bento Gonçalves e outros líderes farroupilhas foram capturados e encaminhados para a capital do Império, no Rio de Janeiro, e depois encaminhados para a prisão do Forte do Mar, na Bahia.

Nessa época, o Império acreditando que a Revolução Farroupilha estava contida, ofereceu anistia aos derrotados. Porém, Netto, que havia assumido o papel de líder após a prisão de Bento Gonçalves, manteve-se ativo na luta.

Somente em 1937, com a ajuda da maçonaria, Bento Gonçalves escapou e regressou ao Rio Grande do Sul, junto ao revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi, onde é eleito presidente da República do Piratini. Garibaldi que já havia participado de movimentos republicanos na Itália decidiu unir-se à Bento Gonçalves pela defesa da liberdade do Rio Grande do Sul e, com ele, levou seu conhecimento em infantaria naval, que haveria de ser uma forte aliada dos republicanos farroupilhas nas lutas que estavam por vir.

O declínio da Revolução Farroupilha

O ano seguinte, 1938, foi tempestuoso para os rebelados. Os farroupilhas lutaram sem sucesso pela reconquista de Porto Alegre, além de sofrerem com grandes baixas militares em suas tropas. Já em 1939, Giuseppe Garibaldi, junto ao general Davi Canabarro, conquistou as cidades catarinenses de Lages e Laguna, nas quais proclamaram a República Catarinense, ou República Juliana.

Entretanto, poucos meses após, os republicanos da Revolução Farroupilha foram surpreendidos pelas tropas imperiais, numa ação que incendiou todas as embarcações dos farrapos nas praias de Laguna e acuando a cavalaria de Canabarro litoral afora.

Em 1840, com a maioridade antecipada de Dom Pedro II, a anistia foi oferecida a todos os revoltosos políticos da época regencial. O novo presidente provincial do Rio Grande do Sul, nomeado pelo Império, Álvaro Machado, tentou acordar com os republicanos o fim da guerra, mas não obteve êxito.

Desse ano em diante, os esforços do exército brasileiro, que se dividiam entre as revoluções regenciais em todo o país, passaram a ser focados, cerca de dois terços, no território gaúcho. Na ofensiva final, o número de combatentes imperiais alcançava o marco de 11.400 soldados, uma quantia elevadíssima para a época, que correspondia a 18% de toda a população do Rio Grande do Sul.

O Tratado do Poncho Verde e o fim da Revolução Farroupilha

No ano de 1843, a fim de evitar a intensificação do conflito, Luís Alves de Lima e Silva, posteriormente conhecido como Duque de Caxias, foi condecorado como presidente e comandante das armas. E após várias derrotas consecutivas, apenas em 1845, no dia 28 de fevereiro, os farroupilhas concordaram com a oferta de paz, denominada Tratado do Poncho Verde, oferecida pelo governo de Duque de Caxias.

As vantagens obtidas depois dos 10 anos de combate e mais de 3.400 mortes foram: anistia política, libertação dos escravos que lutaram lado a lado com os farroupilhas, incorporação dos oficiais farroupilhas junto ao exército brasileiro, devolução das terras que haviam sido tomadas dos farroupilhas durante os anos de combate, diminuição dos impostos e fortalecimento da Assembleia Provincial do Rio Grande do Sul.

Curiosidades

  • O nome “farrapos” atribuído aos revolucionários da revolução farroupilha foi uma forma das tropas imperiais satirizarem os esforços republicanos, que não tinham uniformes próprios e sofisticados para as batalhas.
  • Toda a Revolução Farroupilha foi retratada pela minissérie transmitida pela Rede Globo, A Casa das Sete Mulheres, sob viés da dramatização romântica, porém fiel a alguns fatos históricos do movimento. É importante destacar que a produção foi executada a partir do ponto de vista dos republicanos.