Coragem. Se fosse necessário responder a “velha” pergunta de como definir a Escola Maria Peregrina em uma só palavra, esta certamente seria a nossa escolha.

Não que lá não exista muito planejamento, amor, consciência, autonomia, vontade e criatividade. Isso tudo está presente e visivelmente percebido nas expressões dos tutores, professores, alunos e fundadores. Mas a coragem de iniciar e manter até hoje a escola é marcante. Não é qualquer grupo de pessoas que consegue conduzir uma escola no interior de São Paulo, sem mensalidades, que adota a pedagogia de projetos, que é chancelada pelo próprio José Pacheco¹ e que realmente ouve e inicia seus trabalhos com base nos interesses dos alunos e com o envolvimento das famílias e comunidade.

A liberdade para escolha do tema de cada projeto é uma das características marcantes da Maria Peregrina. Liberdade essa que traz desafios diretos aos tutores da escola que precisam ser humildes o suficiente para reconhecer que não são experts em todos os assuntos. Muitas vezes vão aprender tanto quanto os alunos. Após a definição do tema, os alunos escolhem os tutores para acompanhá-los e orientá-los durante o projeto e elaboram perguntas, muitas perguntas norteadoras que vão dar o caminho para o início da pesquisa e descoberta. O universo de pesquisa está nos livros, na biblioteca da escola, na internet e também com a comunidade nas frequentes visitas fora da escola. Ou seja, o velho sonho da escola que não se restringe aos seus muros e mostra ao aluno que a aprendizagem pode estar em qualquer lugar.

Nos chamou bastante atenção como todo o processo é muito bem desenhado, a começar pela utilização das inteligências de Howard Gardner² como pilares para os projetos. As 8 inteligências múltiplas (linguística, lógica-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, intrapessoal, interpessoal e naturalista) são avaliadas e o educando, em conjunto com o tutor, define como o conteúdo que será estudado se encaixa nas mesmas. São as áreas de conhecimento “tradicionais”: matemática, física, química, biologia, etc. que farão parte de cada uma das inteligências e os professores especialistas de cada área entram, orientam, ensinam e criam exercícios, avaliações e desafios aos alunos dentro de cada tema escolhido. É o reconhecimento, em base teórica, de que cada um dos alunos possui seu potencial e sua característica, que ter a mesma idade não significa os mesmos conhecimentos e mesma velocidade de desenvolvimento e aprendizado. Existe um planejamento e cuidado que vão muito além da escolha da melhor apostila para aplicar o conteúdo pré-definido, como ocorre na maioria das escolas do país. E só para deixar claro, apostilas passam longe da Maria Peregrina.

Ouvir dos próprios alunos, que já são excelentes RPs (Relações Públicas) da escola, sobre o funcionamento do Ensino Médio, da liberdade que possuem, sobre o quanto gostam de lá e sobre a experiência muito positiva com o vestibular feito em caráter de treinamento ainda no 2º ano (todos passaram!) nos deixou muito impressionados. Mais uma comprovação de que a autonomia, comunicação e curiosidade desenvolvidas desde pequenos formam alunos mais capazes de sobreviver e inovar no mundo atual. Aliás se há uma palavra que se sobressai lá é autonomia. Esse é um dos grandes mantras da escola e isso na prática acontece lá dentro e fora dela com os projetos dos alunos ganhando asas.

A coragem da escola é própria. Um exemplo provocador a muitas escolas e educadores, a Maria Peregrina aposta na essência de cada criança e adolescente. Na vontade da descoberta, no desejo de aprender, trabalhar e brincar junto, na comunicação aberta e afetuosa com pais e professores, no estímulo a autonomia com responsabilidade e nas relações humanas. Uma escola onde seu diretor fez mestrado para medir a felicidade de seus alunos e professores. Que acredita na singularidade de cada criança e estimula seus canais de expressão à partir de ideias e projetos colaborativos. O que aprendi? Como e por quê? O que queremos descobrir de novo? O que já sei e posso compartilhar? São apenas algumas das perguntas dos inúmeros projetos desenvolvidos pelos próprios alunos e que são tutoriados, apresentados, avaliados e compartilhados.

O sucesso da Maria Peregrina em ensinar os alunos a aprenderem e a interagir, a formar jovens curiosos, criativos, comunicativos e transformadores é encorajador diante de um sistema educacional que pouco muda ao longo dos anos. A coragem da escola está muito mais em se expor e inovar diante de pais, mães, educadores, pedagogos e uma sociedade que ainda resiste às mudanças e exige o mesmo ensino de 30, 50 anos atrás do que em apresentar algo novo às crianças e jovens. Jovens aceitam, mudam e inovam rapidamente. Enquanto nós, adultos, não aceitamos a inovação porque a mudança dói e dá trabalho. Inovação acontece apenas quando a aceitamos, quando temos coragem e realizamos. Um super estímulo para todos aqueles que, como nós, acreditam em uma educação que pode sim ser diferente do convencional, mais criativa e encantadora.

*Texto escrito em parceria com Guilherme Fernandes, mestre em economia, estudioso, entusiasta da Educação Inovadora e sócio da Escola de Criatividade.

**Texto retirado da Gazeta do Povo.

Quer ler mais sobre métodos de ensino baseados em projetos? Então confira também o nosso artigo Ensinando alunos através de problemas reais.

¹ José Francisco de Almeida Pacheco (10 de maio de 1951) é um educador, pedagogo e pedagogista, nascido na cidade do Porto em Portugal e grande dinamizador da gestão democrática na Educação.

² Formado no campo da psicologia e da neurologia, o cientista norte americano Howard Gardner causou forte impacto na área educacional com sua teoria das inteligências múltiplas, divulgada no início da década de 1980.

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