Nos idos do início do século XX, os Estados Unidos viviam um momento ímpar em sua história, marcado pelo surgimento de grande cidades com prédios que começavam a se projetar para o alto, atraindo pessoas de dentro e fora do país. A imagem de “terra de oportunidades” trouxe imigrantes de dezenas de locais do mundo.

As grandes cidades eram o palco do convívio de latinos, irlandeses, escoceses, italianos, chineses, japoneses, judeus, descendentes de escravos, indígenas entre outros tantos. Considere também o fato do país estar apresentando um vertiginoso crescimento econômico com expansão da indústria e a introdução de novas formas de produzir, capitaneadas pelas indústrias Ford, ou seja, uma nova realidade urbano industrial se projetava em um caldeirão étnico. Um certo desconforto começou a tomar conta da parcela branca do país, motivando o governo a pensar em formas de como lidar com este fenômeno que se intensificara.

De todas as estratégias que o governo americano utilizou para tentar homogeneizar o caldeirão étnico e tranquilizar a população, a que mais nos chama a atenção está ligada à escolarização. John Bobbitt, em sua obra The Curriculum (O Currículo), traz a solução que seria utilizada nos Estados Unidos e posteriormente no mundo todo: a construção de um sistema escolar pautado em um currículo único e eficiente, que seria aplicado a salas de todo o país, com conteúdos escalonados por faixas etárias a partir de uma rigorosa estrutura burocrática e organizacional. Obviamente Bobbitt fora influenciado pelo modelo fordista de produção!

Desde Bobbitt até os dias de hoje muitos estudiosos se debruçaram a pensar a educação e, alguns, mais detidamente sobre o currículo, dos quais convém citar Michel Apple (2008), Miguel Arroyo (2011), Stephen Ball (2011), Tomás Tadeu Silva (2013 e 2000), Gimeno Sacristán (2000 e 2013) e muitos outros. Todos refletindo sobre questões importantes, que cada professor deveria também questionar:

“Por que alguns saberes são escolhidos como válidos e dignos de serem estudados? Quem escolhe quais saberes são válidos para serem estudados? Estes saberes, presentes na composição curricular, refletem o passado, o presente o ou futuro? Estes saberes preparam os estudantes para o presente ou para o futuro? Estou preparando o estudante para a realidade ou para como a realidade deveria ser?”
– Tomás Tadeu Silva

Em síntese, é possível compor o seguinte pensamento: se a escolarização tem o intuito de construir as gerações futuras a partir de valores, conhecimentos, saberes e representações, quem constrói os currículos está, de certa forma, ditando como devem ser as gerações futuras! Portanto, devemos questionar novamente: quem está escolhendo como devem ser as gerações futuras? E para complementar: qual é o papel do professor na construção do currículo?
Se alguém questionasse qualquer professor sobre o que seria mais importante estudar, certamente esse professor faria um pequeno esforço mental e selecionaria um dos conteúdos que está presente em alguma diretriz curricular que está habituado a trabalhar com seus alunos.

Mas será que este conteúdo ainda seria importante se fosse para estudantes de uma determinada faixa etária? Continuaria este assunto sendo relevante se imaginássemos apenas estudantes de escolas rurais? O assunto ainda teria a mesma envergadura se considerássemos regiões muito pobres ou muito ricas?

É necessária uma intensa reflexão sobre todos os questionamentos anteriores, e se, após refletir, ainda restar um incômodo com mistura de dúvida e curiosidade, podemos pensar em alternativas e mudanças.

Estas mudanças passam, ao meu ver, por um amplo processo que envolve a formação inicial dos professores, na qual deve ser fundamental aspectos sociológicos e filosóficos da educação, para possibilitar aos profissionais da educação conseguir fazer uma eficiente leitura da sociedade global e local e que o professor possa se compor como agente de mudanças na sociedade. Também é necessária uma ampla reformulação das políticas de formação continuada que deveriam ser orientadas no sentido de aproveitar todo o saber experiencial do professor e auxiliá-lo a ser um pesquisador de sua própria ação.

Contudo, a maior mudança deve ser na valorização do professor, no sentido de empoderá-lo, demonstrando a confiança de que o professor pode ser capaz de realizar escolhas que melhor se encaixem na escola que está inserido e na realidade do entorno desta escola. Garantir essa autonomia, após uma eficiente formação inicial e constantes formações continuadas, aproximaria o professor das comunidades e, por consequência, dos estudantes.

Em suma, a despeito das sugestões de mudança presentes neste texto, o leitor deve levar consigo muito mais dúvidas do que certezas, deve permitir que os questionamentos aqui elencados se multipliquem, dentro de si mesmo e com seus colegas. O sentimento de inconformidade e as desconfianças talvez sejam o primeiro passo para mudanças.

Hugo Emmanuel da Rosa Corrêa é professor do Instituto Federal do Paraná – campus de Jacarezinho. Doutorando em Ensino de Ciências e Educação Matemática (UEL) e Mestre em História Social (UEL).