A educação reflete as escolhas, os valores e as prioridades de cada sociedade. Ao compararmos os sistemas educacionais do Brasil e da Itália, buscamos apontar e compreender caminhos distintos e, com isso, inspirar avanços. Afinal, conhecer outras experiências é uma maneira potente de repensar nossas práticas e ampliar horizontes da Educação Infantil ao Ensino Médio.
Estrutura e organização: dois caminhos para uma mesma missão
O sistema educacional italiano é dividido em cinco etapas:
- Asilo Nido (0 a 3 anos)
- Scuola dell’Infanzia (3 a 6 anos)
- Scuola Primaria (6 a 11 anos)
- Scuola Secondaria di I Grado (11 a 14 anos)
- Scuola Secondaria di II Grado (14 a 19 anos)
Já no Brasil, a estrutura oficial segue a seguinte progressão:
- Educação Infantil (0 a 5 anos)
- Ensino Fundamental I e II (6 a 14 anos, totalizando 9 anos)
- Ensino Médio (15 a 17 anos)
A principal diferença estrutural está no Ensino Médio, que, na Itália, se estende por cinco anos e exige uma escolha precoce de trajetória: os estudantes optam entre liceus (clássico, científico, linguístico, artístico, entre outros), institutos técnicos ou instituições profissionais. Essa decisão, tomada aos 14 anos, define o perfil da formação e impacta diretamente o ingresso no ensino superior ou no mercado de trabalho.
No Brasil, essa escolha tende a ocorrer mais tarde — muitas vezes apenas na universidade. Além disso, o Ensino Médio brasileiro ainda segue um modelo predominantemente generalista, apesar dos avanços recentes com a implementação dos itinerários formativos.
Calendário e fases da jornada escolar
O cronograma escolar também revela contrastes geográficos e culturais.
Na Itália, o ano letivo italiano começa em setembro e termina em junho, com as longas férias de verão ocorrendo no meio do ano (durante o calor europeu).
No Brasil, as aulas geralmente se iniciam entre janeiro e fevereiro e se encerram em dezembro.
A carga horária semanal na Itália tende a ser mais intensa, com mais de 30 horas de aula no Ensino Médio, o que permite uma imersão mais aprofundada nos conteúdos. No Brasil, embora a carga horária mínima obrigatória seja de 1.000 horas por ano, a realidade prática ainda varia bastante, com diferenças significativas entre redes e regiões.
Avaliações: a oralidade como ferramenta de aprendizagem
Uma das diferenças mais marcantes está nas formas de avaliação. Enquanto o Brasil privilegia provas escritas, trabalhos em grupo e testes padronizados, a Itália valoriza fortemente as avaliações orais, conhecidas como interrogazione. Nesse modelo, o aluno é chamado a responder em voz alta sobre os conteúdos estudados, desenvolvendo raciocínio, argumentação e clareza na comunicação.
Essa prática frequente contribui para que os estudantes italianos se familiarizem desde cedo com a desenvoltura na expressão oral e na exposição pública, habilidades valiosas tanto na vida acadêmica quanto a profissional.
O papel do professor e o vínculo com os estudantes
Na Itália, é comum que os mesmos professores acompanhem uma turma por vários anos, especialmente nos ciclos iniciais. Essa continuidade cria vínculos mais fortes e permite um acompanhamento mais atento da trajetória de cada aluno.
No Brasil, a troca de docentes a cada ano letivo ou disciplina é a prática mais comum. Embora isso traga diferentes perspectivas aos alunos, pode dificultar a construção de relações mais duradouras e personalizadas, especialmente em turmas grandes ou em contextos de alta rotatividade docente.
Escolas públicas e a qualidade percebida
Uma diferença importante entre os dois países está na percepção da qualidade das escolas públicas. Na Itália, essas instituições são, em geral, bem avaliadas e amplamente frequentadas pela população. Apesar da existência de pequenas taxas para serviços como alimentação ou atividades extracurriculares, a qualidade do ensino é considerada alta e estável.
No Brasil, a qualidade da escola pública ainda é bastante desigual. Enquanto algumas redes municipais e estaduais oferecem boas estruturas e resultados consistentes, muitas enfrentam desafios crônicos, como infraestrutura precária, falta de materiais, altos índices de evasão e baixos salários docentes.
Esse cenário acaba gerando uma busca crescente pelo ensino privado, mesmo entre famílias com poucos recursos, o que contribui para o aprofundamento das desigualdades educacionais.
Participação ativa e protagonismo estudantil
As escolas italianas valorizam práticas mais participativas, com atividades em grupo, debates e projetos interdisciplinares. Embora o conteúdo seja exigente e a memorização ainda tenha seu espaço, há um esforço para equilibrar esse rigor com práticas que desenvolvam autonomia e pensamento crítico.
No Brasil, apesar de avanços com metodologias ativas e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o ensino ainda é, em muitos contextos, baseado na exposição do professor e na reprodução de conteúdo. O protagonismo do aluno precisa continuar ganhando espaço nas salas de aula brasileiras.
O que os educadores brasileiros podem aprender com o sistema de ensino da Itália?
Não se trata de importar um modelo, mas de refletir sobre algumas lições valiosas, como :
- A importância da oralidade como forma de avaliação e aprendizagem: que tal incluir mais seminários, rodas de conversa e apresentações orais nas rotinas escolares?
- A valorização da escola pública como espaço de qualidade e cidadania.
- O vínculo de longo prazo entre professores e turmas, que permite um acompanhamento mais humano e efetivo.
- A construção da autonomia estudantil por meio de escolhas curriculares e experiências formativas.
- O reconhecimento de que uma educação rigorosa não precisa ser autoritária e que a exigência pode conviver com a empatia e a maior participação.
E no Brasil?
Apesar dos desafios, o país acumula conquistas importantes nos últimos anos, como a ampliação do acesso à Educação Infantil, os avanços na inclusão e um olhar mais atento às desigualdades. Ainda há muito a percorrer, mas também há muito a ensinar.
No fim das contas, comparar a educação básica do Brasil com a da Itália não significa escolher um modelo ideal, mas ampliar o repertório, compreendendo que cada sistema carrega virtudes, limites e contextos próprios.
A experiência italiana nos lembra que rigor pode caminhar junto com vínculo, que a oralidade também é aprendizagem e que a escola pública pode, sim, ser um espaço de excelência reconhecida socialmente.
Para nós, educadores brasileiros, o convite é olhar para essas diferenças com curiosidade crítica e perguntar: o que faz sentido adaptar à nossa realidade?
A transformação da educação não acontece por decretos ou fórmulas prontas. Ela começa, todos os dias, nas escolhas pedagógicas feitas dentro e fora da sala de aula.