Inspirada nos princípios do cooperativismo e apoiada pela Sicredi Norte Sul, a Cooperlar mostra como a cooperação pode se tornar uma poderosa metodologia educativa, promovendo protagonismo juvenil e aprendizagem significativa
Por Marcos Ribeiro
Em um tempo em que a educação busca cada vez mais sentido e conexão com a vida real, algumas experiências pedagógicas conseguem ir além da sala de aula e transformar a forma como estudantes aprendem, convivem e se relacionam com o mundo. No município de Ribeirão Claro, no interior do Paraná, no Lar da Criança Jesus Amigo, um grupo de crianças e jovens vem descobrindo que aprender pode significar muito mais do que estudar conteúdos escolares. Ali, eles aprendem a dialogar, a tomar decisões coletivas, a assumir responsabilidades e a construir soluções juntos.
Foi nesse contexto que nasceu a Cooperlar, uma cooperativa escolar que vem se consolidando como um espaço vivo de aprendizagem, protagonismo juvenil e formação cidadã. Mais do que um projeto educativo, a Cooperlar representa um movimento que reafirma uma ideia essencial: quando a escola abre espaço para a cooperação, a aprendizagem ganha significado e transforma trajetórias.

A FORÇA DE UMA IDEIA QUE NASCEU DA COOPERAÇÃO
A criação da cooperativa escolar foi inspirada nos princípios do cooperativismo e na necessidade de oferecer aos estudantes experiências educativas que dialogassem com a vida e com a comunidade. Desde o início, a iniciativa contou com o apoio e a confiança da Sicredi Norte Sul, cooperativa financeira que acreditou no potencial educativo do projeto e contribuiu para sua idealização e seu desenvolvimento.
O incentivo ao cooperativismo dentro do ambiente educativo reforça um dos princípios fundamentais desse movimento: a importância da educação para formar cidadãos conscientes, participativos e comprometidos com o desenvolvimento coletivo. Foi assim que a Cooperlar começou a tomar forma — como um espaço onde os estudantes poderiam aprender, na prática, valores como solidariedade, organização coletiva, respeito às diferenças e participação democrática.

Da sala de aula à assessoria pedagógica: uma trajetória de aprendizagem
Minha relação com a Cooperlar começou ainda na sala de aula. Naquele momento, atuando como professor orientador, percebia diariamente o potencial que surgia quando os estudantes tinham a oportunidade de participar ativamente das experiências educativas. A curiosidade, a criatividade e a capacidade de organização que demonstravam revelavam algo importante: os estudantes têm muito a contribuir quando encontram espaços que valorizam suas ideias. Foi dessa percepção que nasceu o desejo de criar um ambiente onde eles pudessem exercer protagonismo real.
Hoje, atuando como assessor pedagógico, acompanhar a trajetória da Cooperlar é também acompanhar um processo contínuo de aprendizagem. “Quando confiamos nos estudantes e abrimos espaço para que participem das decisões, a aprendizagem ganha sentido. Eles passam a perceber que suas ideias têm valor e que podem transformar o espaço em que vivem.” Essa experiência reforça diariamente uma convicção: educar também é acreditar no potencial humano presente em cada estudante.

Educadores que acreditam fazem a diferença
Nenhuma experiência educativa transformadora acontece sem educadores comprometidos. Na trajetória da Cooperlar, a professora Letícia Ferreira tem desempenhado um papel fundamental na mediação das atividades e no fortalecimento da cooperativa. Seu trabalho pedagógico se destaca pela escuta atenta, pelo incentivo à participação e pela valorização das ideias dos estudantes.
Ao lado dos cooperados, ela contribui para construir um ambiente onde todos se sentem parte do processo. “Ver os estudantes discutindo ideias, planejando ações e assumindo responsabilidades dentro da cooperativa é perceber que estamos formando cidadãos mais conscientes e participativos.” Esse trabalho revela algo essencial: a educação cooperativa não se constrói apenas com metodologias, mas também com relações humanas baseadas na confiança, no diálogo e na participação.

O significado de um nome que carrega identidade
Mais do que um nome, Cooperlar carrega em si a essência do projeto. A escolha do nome nasce da própria identidade do espaço onde a cooperativa se desenvolve. “Cooper” faz referência à palavra cooperativa, representando o espírito de colaboração e organização coletiva que sustenta o projeto. Já “lar” remete diretamente ao Lar da Criança, instituição onde os estudantes se encontram e constroem diariamente as suas experiências de aprendizagem e convivência. Assim, Cooperlar expressa a união entre cooperação e acolhimento, dois pilares fundamentais da iniciativa.
O significado também está presente no próprio logotipo da cooperativa. As cores verde e azul representam as riquezas naturais de Ribeirão Claro — a vegetação e as águas que marcam a paisagem da região. No centro do símbolo, mãos de diferentes cores simbolizam a diversidade e a união entre os associados. O coração presente na identidade visual representa o amor que move as ações dos cooperados. Os pinheiros, elementos tradicionais da paisagem paranaense, aparecem associados ao símbolo do cooperativismo, reforçando o pertencimento territorial. Por fim, o anjo presente no logotipo representa a pureza e a essência da infância, lembrando que a cooperativa nasce da capacidade transformadora das crianças e dos jovens que participam dessa experiência. Mais do que um símbolo gráfico, o logotipo da Cooperlar traduz visualmente os valores que sustentam o projeto: cooperação, diversidade, cuidado e esperança.

Desenhado pelos cooperados com o auxílio o professor Ismael.
Quando uma barrica se transforma em aprendizagem
Entre os diversos momentos marcantes da trajetória da Cooperlar, um deles ganhou significado especial: a utilização das barricas como objeto de aprendizagem. O que poderia parecer apenas um material simples tornou-se uma poderosa ferramenta pedagógica. A partir delas, os estudantes passaram a desenvolver atividades ligadas à criatividade, à sustentabilidade e à reutilização de materiais.
Mais do que trabalhar com um objeto físico, a experiência permitiu que os estudantes refletissem sobre possibilidades de transformação e inovação. “O momento das barricas foi simbólico para todos nós. Ali percebemos que a aprendizagem não depende apenas de materiais sofisticados, mas da capacidade de transformar aquilo que temos em oportunidade educativa.” Esse episódio se tornou um marco dentro da cooperativa, pois demonstrou que a aprendizagem significativa nasce quando curiosidade, criatividade e participação caminham juntas.

A carteirinha do associado: pertencimento que ultrapassa os muros da escola
Outro marco importante na trajetória da Cooperlar foi a criação da carteirinha do associado, um símbolo concreto de pertencimento e participação na cooperativa escolar. Mais do que um simples documento de identificação, a carteirinha representa o compromisso dos estudantes com os valores da cooperação, da responsabilidade coletiva e da participação ativa nas decisões da cooperativa. Ao receber a sua carteirinha, cada associado passa a se reconhecer como parte de algo maior: uma organização construída coletivamente dentro do ambiente educativo.
A iniciativa também fortaleceu a relação da cooperativa com a comunidade local. Por meio de parcerias estabelecidas com alguns estabelecimentos do município, os associados da Cooperlar passaram a contar com benefícios e descontos em serviços e produtos, reconhecendo e valorizando o protagonismo desses estudantes. Essa ação, aparentemente simples, revelou um aprendizado profundo: quando a escola abre espaço para experiências reais de participação, os estudantes passam a compreender, na prática, como funcionam os princípios do cooperativismo e como a cooperação pode gerar benefícios para todos. Mais do que um cartão, a carteirinha tornou-se um símbolo de identidade, pertencimento e reconhecimento, reforçando que a Cooperlar é, acima de tudo, um espaço onde os estudantes aprendem a cooperar, a decidir e a construir juntos.

Compartilhar experiências para inspirar
Com o crescimento da cooperativa, parte dessa trajetória passou a ser registrada e compartilhada com a comunidade. Algumas dessas experiências podem ser acompanhadas no canal da cooperativa no YouTube, onde estudantes e educadores divulgam atividades, encontros e momentos marcantes do projeto. Esses registros ajudam a ampliar o alcance da iniciativa e mostram que a cooperativa escolar pode ser uma poderosa estratégia pedagógica para desenvolver protagonismo juvenil.

Muito além de um projeto escolar
Participar da Cooperlar significa aprender algo que dificilmente aparece apenas nos livros didáticos. Os estudantes aprendem a dialogar, a respeitar opiniões diferentes, a assumir responsabilidades e a construir soluções coletivas. Essas competências são fundamentais para a vida em sociedade e mostram que a escola pode desempenhar um papel central na formação de cidadãos críticos, participativos e solidários. Essa perspectiva dialoga com concepções pedagógicas defendidas por educadores como Paulo Freire, que destacava a importância do diálogo e da participação ativa na construção do conhecimento. Na Cooperlar, aprender não significa apenas receber informações. Significa também participar da construção delas.


O futuro nasce quando aprendemos juntos
Em um tempo em que tantas vezes a educação é questionada, experiências como a Cooperlar nos lembram de algo essencial: a escola continua sendo um dos lugares mais potentes de transformação social. Ali, entre reuniões de cooperados, decisões coletivas e projetos construídos em conjunto, crianças e jovens aprendem algo que dificilmente caberia apenas em um livro didático: aprendem que a cooperação tem força, que suas vozes importam e que juntos podem construir caminhos novos. Talvez seja por isso que a Cooperlar emocione tanto quem acompanha sua história. Porque ela revela, de forma simples e verdadeira, aquilo que toda educação deveria ser: um convite para transformar o mundo a partir da cooperação.
A Cooperlar continua escrevendo a sua história todos os dias. Sua trajetória só começou porque três grandes mulheres acreditaram no projeto e abriram as portas do Lar para o programa Cooperativas Escolares: Juliana, Roseli e Uliana. Elas nos apoiam sempre e vivenciam conosco uma convicção essencial: “A vida não é competição, é cooperação.” Assim, nossa história continua sendo escrita por protagonistas que constroem, a cada encontro, um novo capítulo dessa linda trajetória.


Sobre o autor
Marcos Henrique Ribeiro é pedagogo, professor e assessor pedagógico, mestre em Educação pela Universidade Federal do Paraná. Ao longo de sua trajetória na educação, tem se dedicado à construção e ao fortalecimento de práticas pedagógicas que valorizam o protagonismo dos estudantes, a aprendizagem significativa e a vivência de valores cooperativistas no cotidiano escolar. Sua atuação transita entre a sala de aula, a assessoria pedagógica e a formação de educadores, sempre com o olhar voltado para experiências que conectem escola, comunidade e transformação social. Acredita que a educação se fortalece quando os estudantes têm voz, participam das decisões e vivenciam, na prática, princípios como cooperação, responsabilidade e solidariedade. Casado e pai de dois filhos, Marcos também vivencia a educação em sua dimensão mais humana e cotidiana, experiência que reforça sua convicção de que educar é um processo coletivo, marcado pelo cuidado, pelo diálogo e pela construção de sentido. Inspirado pelo potencial transformador da educação, dedica-se a apoiar iniciativas que despertam nos estudantes o desejo de aprender, participar e transformar a realidade em que vivem.



