Educação pelo Mundo: o que o Brasil pode aprender com o sistema educacional da Holanda?

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Educação pelo Mundo: o que o Brasil pode aprender com o sistema educacional da Holanda?
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Comparar sistemas educacionais ajuda a compreender como diferentes países organizam tempos, espaços, currículos e relações para favorecer o desenvolvimento integral dos estudantes. Nesse sentido, a Holanda é frequentemente citada como referência por combinar qualidade acadêmica, bem-estar infantil e autonomia escolar de forma consistente.

Neste artigo da série Educação pelo Mundo, analisamos as semelhanças e as diferenças entre a educação no Brasil e a educação na Holanda, da Educação Infantil ao Ensino Médio, e refletimos sobre aprendizados possíveis para a realidade brasileira.

Estrutura do sistema educacional: organização e escolhas precoces

Na Holanda, o sistema educacional é dividido em três grandes etapas:

  • Ensino Fundamental: dos 4 aos 12 anos
  • Ensino Médio: dos 12 aos 16, 17 ou 18 anos
  • Ensino Superior

A escolaridade é obrigatória dos 5 aos 16 anos e, até os 18 anos, o jovem deve estar estudando ou em formação profissional.

No Brasil, a estrutura é composta por:

  • Educação Infantil: dos 4 aos 6 anos
  • Ensino Fundamental: dos 6 aos 14 anos
  • Ensino Médio: dos 15 aos 17 anos 

Uma diferença central está no momento de definição das trajetórias. Na Holanda, ao final do Ensino Fundamental, os alunos recebem uma recomendação da escola, baseada no desempenho, no perfil e no desenvolvimento, que orienta a entrada no Ensino Médio. A partir daí, seguem diferentes percursos:

  • HAVO: formação geral
  • VWO: formação preparatória para a universidade
  • VMBO: formação profissionalizante


Já no Brasil, essa diferenciação ocorre mais tarde, e o Ensino Médio tende a ser mais generalista, mesmo após os avanços relacionados aos itinerários formativos.

O modelo holandês aposta na personalização precoce, enquanto o brasileiro busca postergar escolhas, oferecendo uma formação mais ampla antes da especialização.

Educação Infantil: brincar, autonomia e desenvolvimento integral

Na Holanda, a educação básica começa aos 4 anos, com forte valorização do brincar, da convivência e da autonomia. A educação primária prioriza o desenvolvimento social, o emocional e o cognitivo, sem excesso de tarefas.

É comum que crianças holandesas tenham pouco ou nenhum dever de casa nos primeiros anos. A lógica é clara: a aprendizagem acontece na escola, e o tempo fora dela deve ser preservado para a convivência familiar, o lazer e o descanso.

No Brasil, a Educação Infantil também valoriza o lúdico, conforme a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). No entanto, ainda é frequente a antecipação de conteúdos formais, a pressão por alfabetização precoce e a sobrecarga de atividades, especialmente em contextos competitivos.

A experiência holandesa reforça a importância de respeitar o tempo da infância como etapa fundamental do desenvolvimento humano.

Ensino Fundamental: autonomia, idiomas e menos centralidade nas provas

Durante o Ensino Fundamental, os estudantes holandeses permanecem cerca de oito anos na educação primária. Nesse período, são estimulados a desenvolver:

  • a autonomia
  • a organização
  • a cooperação
  • a comunicação
  • o multilinguismo

O ensino de inglês começa cedo, e os alunos costumam estudar outros idiomas ao longo da trajetória.

No Brasil, o Ensino Fundamental é estruturado em dois ciclos e segue o currículo nacional comum. Apesar dos avanços, ainda há forte centralidade nas avaliações, nos conteúdos fragmentados e na preparação para exames futuros.

Na Holanda, o foco está mais na construção de competências do que na memorização. A avaliação é contínua, com feedbacks qualitativos frequentes, o que reduz a cultura de reprovação.

Ensino Médio: personalização, projetos e formação para a vida

O Ensino Médio holandês é marcado pela diversidade de caminhos. Os estudantes podem seguir formações acadêmicas ou profissionalizantes, ambas socialmente valorizadas.

Além disso, muitas escolas adotam modelos flexíveis de ensino, com:

  • redução do número de provas;
  • ênfase em projetos;
  • trabalhos colaborativos;
  • avaliação por níveis de domínio;
  • uso intenso de tecnologia.

Há instituições que substituíram provas tradicionais por sistemas contínuos de acompanhamento e devolutivas pedagógicas.

No Brasil, o Ensino Médio ainda enfrenta desafios estruturais: evasão, desmotivação, currículo pouco conectado à realidade dos jovens e desigualdades regionais profundas. A reforma do Ensino Médio busca avanços, mas a implementação ainda é desigual.

O modelo holandês mostra que é possível unir rigor acadêmico, sentido formativo e flexibilidade pedagógica.

Autonomia escolar e diversidade pedagógica

Um dos pilares da educação holandesa é a autonomia das escolas. Embora exista base curricular comum, cada instituição pode definir sua linha pedagógica: Montessori, tradicional, inovadora, religiosa, tecnológica, entre outras.

O Estado financia tanto as escolas públicas quanto as privadas sem cobrar mensalidades, garantindo diversidade com equidade.

No Brasil, apesar da autonomia prevista em lei, muitas escolas enfrentam limitações administrativas, financeiras e pedagógicas, o que restringe a inovação.

A experiência holandesa indica que a autonomia acompanhada de avaliação constante pode fortalecer a qualidade educacional.

Avaliação e acompanhamento: foco no desenvolvimento, não apenas no resultado

Na Holanda, os estudantes realizam avaliações nacionais importantes, especialmente na transição para o Ensino Médio. No entanto, essas provas consideram também aspectos socioemocionais, a capacidade de resolução de problemas e as habilidades sociais.

Além disso, o acompanhamento individual é marca do sistema. Estudantes com dificuldades recebem apoio especializado desde cedo, evitando a exclusão escolar.

No Brasil, embora existam políticas de inclusão e avaliação externa, muitas redes ainda atuam de forma reativa, intervindo apenas quando o problema já se agravou.

Investir em prevenção pedagógica é uma das grandes lições do modelo holandês.

Bem-estar, convivência e educação para a cidadania

A educação holandesa reconhece que aprender envolve emoções, relações e identidade. Por isso, temas como cidadania, diversidade, sexualidade, convivência e saúde são tratados de forma aberta e sistemática.

As escolas também trabalham ativamente a prevenção ao bullying, à discriminação e à exclusão social.

No Brasil, esses temas estão previstos no currículo, mas a implementação ainda depende muito da iniciativa local e da formação dos professores.

O modelo holandês mostra que educar é também cuidar da formação ética, emocional e social.

O que o Brasil pode aprender com a Holanda?

A comparação entre Brasil e Holanda revela caminhos possíveis para o nosso país:

  • Valorizar mais o tempo da infância.
  • Reduzir a centralidade das provas.
  • Investir em feedbacks formativos.
  • Fortalecer a autonomia das escolas.
  • Diversificar trajetórias sem hierarquizá-las.
  • Integrar bem-estar e aprendizagem.
  • Antecipar o apoio pedagógico.
  • Reconhecer diferentes talentos.

O desafio é traduzir essas experiências para a realidade brasileira, respeitando as dimensões culturais e as desigualdades estruturais.

Ampliar repertórios para transformar práticas

Observar o sistema educacional holandês lembra que qualidade se constrói quando há confiança nos educadores, investimento público consistente, escuta ativa dos estudantes e respeito aos tempos da aprendizagem.

Para educadores brasileiros, esse olhar para fora é, antes de tudo, um convite para dentro: repensar rotinas, metodologias, relações e prioridades. A transformação não acontece por fórmulas prontas, mas por escolhas pedagógicas conscientes, feitas todos os dias, em cada sala de aula.

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