Nessa semana o pessoal do Transformando.com.vc me perguntou se eu teria um artigo sobre motricidade, atividades e possibilidades para desenvolver as habilidades motoras dos educandos. No mesmo instante, me empolguei com o tema, pois sempre acreditei muito que a educação nas escolas deveria ser sempre em movimento constante. Isso já daria um belo artigo. Me incomoda a velha forma de manter crianças “enclausuradas” em sala de aula a maior parte do tempo, afinal elas estão sempre ávidas a se movimentar, perguntar, correr e se relacionar. Não à toa, o momento preferido delas ao longo do dia escolar, é o recreio.

O assunto sempre me fascinou, pois vejo que a escola que se movimenta e permite o movimento, amplia possibilidades e estimula o contato, o novo e a oportunidade. Nesse espaço de hoje, gostaria de explorar o tema de maneira mais sutil, explorando o movimento como símbolo, diálogo e descoberta. Movimento para criatividade, para as emoções, para novas relações, para autoconfiança e também para o bem-estar e a saúde. E por isso pedi a uma grande amiga e educadora, Sandra Cornelsen, fundadora da Escola Terra Firme, onde minha filha mais velha estudou nos últimos anos, para compartilhar com os leitores a experiência que desenvolvem com maestria junto aos alunos da escola – a psicomotricidade relacional. Afinal de contas, nos tornamos completos com o movimento do todo – do corpo, da mente e das emoções. E talvez seja esse um dos principais desafios a serem considerados nas escolas. Obrigado a equipe da Terra Firme pelo texto e boa leitura!
Jean Sigel – Fundador da Escola de Criatividade

Psicomotricidade relacional na educação: um processo de humanização

No final da década de 1970 surge, na França, um movimento dentro dos estudos da psicomotricidade que apontou para um corpo capaz de um vivenciamento global, deixando-se de pensar em um corpo compartimentado. Este movimento é o que dará suporte para, na década seguinte, Andre Lapierre e Aucouturier fundarem uma psicomotricidade já mais próxima do que hoje é conhecida por psicomotricidade relacional, cuja característica é a busca constante do aperfeiçoamento humano, tomando como foco a valorização das relações e das potencialidades do ser.

A Terra Firme foi pioneira na aplicação dos recursos da psicomotricidade relacional no ambiente escolar, beneficiando tanto os alunos e alunas quanto a equipe pedagógica. Um dos fatores fundamentais da proposta de formação humanística e cidadã é a disponibilidade das professoras e professores abordarem não apenas os aspectos cognitivos, como também os relacionados à cidadania e ao desenvolvimento humano, sempre com a responsabilidade e consciência de trabalhar essas características para que os educandos se aprimorem individualmente e em grupo.

Segundo Sandra Cornelsen, fundadora e diretora da Terra, os(as) profissionais que trabalham na escola contam com atenção especial, supervisão constante e participação em momentos reflexivos acerca de sua prática, garantindo a segurança necessária para o desenvolvimento do trabalho pedagógico. São pessoas que têm espaço para vivenciar e resolver seus conflitos, dando lugar à criatividade e afetividade.

“Nem os alunos, nem os professores são máquinas que vêm à escola para ensinar e/ou aprender. Têm sua vida, sua história, seus problemas e conflitos e, nesse sentido, a psicomotricidade relacional é um instrumento capaz de auxiliar tanto os professores e professoras quanto os alunos e alunas, no processo de ensinar e aprender”, explica.

Nessa perspectiva, as mudanças acontecem no tempo certo e exigem cuidado contínuo e reflexão permanente, para que sejam efetivas e estejam fundamentadas no processo de amadurecimento e de crescimento humano.

“Na atuação com o grupo de adultos (professores e funcionários), promove-se o autoconhecimento, a tomada de consciência, a maior compreensão de si mesmo e do outro. Convive-se com as próprias frustrações e com os desejos em um grupo de trabalho, sem medo da crítica e com a aceitação das diferenças individuais, construindo assim uma nova disponibilidade”, pondera Sandra.

O jogo simbólico realizado na sala de psicomotricidade relacional tem como objetivo a promoção de um lugar de relação e de vivência por meio do contato direto com os objetos e com os outros, desempenhando diferentes papéis, vivenciando prazeres e frustrações, possibilitando aos participantes exibir, sem medo de críticas ou punições, aspectos de sua personalidade e de sua pessoalidade, para que sejam aceitos, pensados e refletidos.

“A partir disso, o psicomotricista relacional faz a sua intervenção com um máximo de aceitação, um mínimo de crítica e um grande volume de disponibilidade, estabelecendo um diálogo que nasce de uma relação verdadeira e cúmplice”, afirma a diretora da Terra Firme.

De acordo com Sandra, as transformações que vêm ocorrendo no mundo contemporâneo trazem novos desafios para a educação. O sujeito adapta-se ao mundo em que vive, em eterna transformação.

“Esse contexto nos leva a pensar na importância de uma educação que leve em conta a diversidade humana e que viabilize a integração entre motricidade, afetividade e aprendizagem. Dentro deste propósito, a psicomotricidade relacional é vista como possibilidade de inserção em um processo de humanização, visto que o ser humano utiliza-se do seu corpo para estabelecer relações consigo mesmo, com os outros e com o meio”, diz.

Texto: Karina Ernsen – Portal Terra Firme

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