Há alguns dias, uma mãe me disse:
“Edimara, eu já li tantos livros, assisti tantos vídeos e continuo com a sensação de que estou falhando como mãe.”
Confesso que aquela frase ficou comigo. Não porque ela fosse a única a sentir isso, mas porque representa a realidade de muitas famílias.
Vivemos uma época em que nunca tivemos tanto acesso à informação sobre educação de filhos. Basta abrir as redes sociais e logo encontramos alguém dizendo o que deveríamos fazer, como agir ou qual seria a melhor forma de lidar com determinada situação.
É claro que o conhecimento é importante. Eu mesma estudo constantemente e acredito que ele é um grande aliado da parentalidade.
O problema é quando, em meio a tantas orientações, começamos a acreditar que sempre nos falta alguma coisa.
Que talvez eu devesse brincar mais.
Conversar mais.
Ter mais paciência.
Ler mais um livro.
Conhecer mais uma técnica.
É nesse momento que a culpa costuma aparecer.
Ao longo da minha trajetória como educadora parental, tenho percebido que muitos pais acreditam que a transformação da família depende de encontrar uma nova estratégia. Mas, na maioria das vezes, a pergunta mais importante não é: “O que mais preciso aprender?”, e sim: “O que a minha família está me mostrando?”
Fortalecer vínculos não começa com uma lista de regras. Começa quando desaceleramos o suficiente para olhar para dentro da nossa própria casa e enxergar:
Como meu filho demonstra o que sente?
Como resolvemos nossos conflitos?
Quais momentos nos aproximam? E quais parecem nos afastar?
Muitas vezes, as respostas que procuramos já estão presentes na convivência diária. O desafio é que, na tentativa de acertar, acabamos acreditando que precisamos ser pais perfeitos.
Donald Winnicott, pediatra e psicanalista inglês, revolucionou a forma como compreendemos o cuidado infantil ao apresentar o conceito da “mãe suficientemente boa”. Sua contribuição nos lembra que crianças e adolescentes não precisam de pais perfeitos. Precisam de adultos que ofereçam segurança, afeto, disponibilidade emocional e que saibam reconhecer seus erros, reparar quando necessário e seguir construindo a relação.
Essa perspectiva nos convida a abandonar a busca pela perfeição e investir na construção de relações verdadeiras.
Quando mudamos esse olhar, passamos também a enxergar nossos filhos de outra forma. Em vez de perguntar apenas “Como faço para mudar esse comportamento?”, começamos a perguntar: “O que esse comportamento está tentando me comunicar?”
Talvez um dos maiores desafios da parentalidade é aprender a olhar além das atitudes dos filhos.
Quando uma criança ou um adolescente se mostra agressivo, distante, desobediente, excessivamente irritado ou simplesmente deixa de conversar como fazia antes, nossa tendência é focar apenas no comportamento.
Mas o comportamento é uma forma de linguagem.
Imagine uma mãe ou um pai que chega em casa e, mesmo estando fisicamente presente, permanece boa parte do tempo no celular. Aos poucos, a criança deixa de convidar para brincar. O adolescente deixa de contar como foi o seu dia.
Em ambos os casos, o silêncio pode estar comunicando a mesma necessidade: sentir-se visto, acolhido e importante.
Marshall Rosenberg, criador da Comunicação Não Violenta, nos ensina que todo comportamento é uma tentativa de atender ou expressar uma necessidade. Quando compreendemos essa perspectiva, deixamos de olhar apenas para o sintoma e passamos a cuidar da relação.
E talvez seja justamente essa a mudança mais importante.
As necessidades de uma criança e de um adolescente são diferentes, mas existe algo que permanece em todas as fases da vida: a necessidade de vínculo.
Na infância, ele costuma ser construído pelas brincadeiras, pelo colo, pelas descobertas compartilhadas e pela presença.
Na adolescência, ganha novas formas: uma conversa sem julgamentos, um interesse genuíno pelo que o filho pensa, respeito pela sua individualidade e a disposição para permanecer por perto, mesmo quando ele parece querer distância.
As demonstrações de afeto mudam, mas a necessidade de sentir-se amado, pertencente e seguro continua presente durante toda a vida.
É justamente aí que muitas famílias se surpreendem.
Fortalecer vínculos não exige grandes viagens, presentes caros ou experiências extraordinárias.
Na verdade, a memória afetiva é construída nos pequenos gestos repetidos todos os dias.
Perguntar como foi o dia e realmente escutar a resposta.
Brincar.
Caminhar juntos.
Preparar uma refeição em família.
Assistir a um filme lado a lado.
Pedir desculpas depois de um conflito.
Dizer: “Eu gosto de estar com você.”
Daniel Siegel, psiquiatra e pesquisador do desenvolvimento infantil, explica que o cérebro humano se desenvolve por meio das relações. São as experiências repetidas de conexão que constroem segurança emocional, autorregulação, empatia e confiança.
Isso significa que pequenas atitudes, quando vividas com constância, têm um impacto muito maior do que imaginamos.
Muitos pais acreditam que precisam descobrir uma nova técnica para melhorar a relação com os filhos.
Na prática, descubro diariamente que eles já possuem muitos dos recursos necessários.
O desafio não é fazer mais.
É estar mais presente.
É perceber que pequenas mudanças na forma de olhar, ouvir, acolher e responder aos filhos podem transformar profundamente a convivência.
Quando isso acontece, livros, cursos e ferramentas deixam de ser soluções prontas e passam a fazer sentido dentro da realidade de cada família.
Porque cada família é única.
Volto a pensar naquela mãe que me disse que já havia lido tantos livros e, mesmo assim, sentia que estava falhando.
Talvez ela continue estudando. E isso é maravilhoso. O conhecimento amplia nosso olhar e nos ajuda a crescer como pais.
Mas espero que ela descubra algo ainda mais importante.
O vínculo com os filhos não será construído apenas pelo próximo livro que ela ler.
Ele será construído nas pequenas escolhas de todos os dias.
Na conversa antes de dormir, na escuta atenta depois da escola.
Na brincadeira de cinco minutos com uma criança, no interesse genuíno por aquilo que um adolescente tem a dizer.
No pedido de desculpas depois de um conflito.
No abraço, no olhar e na presença.
Porque a culpa nos faz acreditar que precisamos fazer mais.
A consciência nos convida a perceber tudo o que ainda podemos construir e que o vínculo se fortalece quando fazemos o simples com intenção, presença e constância.
Uma reflexão para levar com você
Antes de buscar uma nova técnica ou estratégia, faça uma pausa e pergunte a si mesmo:
O que meu filho está tentando me comunicar?
O que a nossa dinâmica familiar está revelando?
E qual pequena atitude posso escolher hoje para fortalecer esse vínculo?
Edimara Feracin
Educadora Parental/Assessora Pedagógica



