Nem todo mundo aprende quando alguém explica.
Alguns aprendem quando observam. Outros, quando experimentam. Há quem precise perguntar, conversar, investigar, repetir, manipular, visualizar, ouvir, movimentar-se ou encontrar uma maneira própria de organizar aquilo que está sendo apresentado. E há estudantes que podem precisar de mais tempo, mais previsibilidade, diferentes formas de comunicação ou outros caminhos para demonstrar aquilo que sabem.
E se, em vez de perguntar “como fazer o estudante aprender?”. começássemos a perguntar “quantas portas estamos oferecendo para que ele possa aprender?”. Essa mudança de pergunta pode transformar a prática pedagógica.
Quando pensamos em estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), essa reflexão ganha ainda mais importância. Não existe uma única maneira de ser, comunicar-se, interagir ou aprender sendo autista. Por isso, uma prática verdadeiramente inclusiva não significa criar uma atividade paralela ou simplesmente “facilitar” o conteúdo. Significa ampliar as possibilidades de acesso, participação, comunicação e expressão, sem retirar do estudante a oportunidade de aprender, investigar, criar, cooperar e transformar.
E será que estamos abrindo portas suficientes para a aprendizagem? Imagine, então, uma mesma experiência de aprendizagem com diferentes portas de entrada. Não existe uma ordem obrigatória. Uma porta pode ser aberta, fechada e reaberta. Duas podem ser utilizadas simultaneamente. Uma pode precisar de mais tempo. Outra pode ser substituída por um caminho diferente. O objetivo não é oferecer uma receita. É ampliar as possibilidades.
1. OBSERVAR – Antes de explicar, que tal olhar?
Observar é uma forma de começar a aprender. Mas observar também é uma forma de o professor começar a ensinar. Antes de pensar em uma estratégia para um estudante com TEA, observe: Como ele demonstra interesse? O que chama sua atenção? Como comunica que compreendeu? O que faz quando não compreende? Quais situações favorecem sua participação? Quais situações parecem dificultá-la? Que recursos utiliza espontaneamente para organizar sua ação? Essa observação pode revelar possibilidades que uma avaliação tradicional não mostra.
Na prática: Imagine que a turma vai estudar plantas. Em vez de iniciar diretamente com uma explicação, o professor pode disponibilizar diferentes possibilidades de observação: plantas reais; imagens; vídeos curtos; folhas, sementes e flores para manipulação; desenhos; fotografias do ambiente escolar. O estudante pode observar, tocar, aproximar-se, apontar, fotografar, desenhar ou selecionar aquilo que chamou sua atenção.
Reflexão para o professor: Estou avaliando apenas se o estudante responde à minha pergunta ou também estou observando as diferentes formas pelas quais ele demonstra que está pensando?
2. CONVERSAR – O que os outros pensam sobre isso?
Conversar também é aprender. Mas comunicação não acontece apenas pela fala. Para alguns estudantes, especialmente aqueles que apresentam dificuldades na comunicação oral, participar de uma conversa pode exigir outras possibilidades: imagens, gestos, objetos, escrita, pranchas de comunicação, recursos visuais, tecnologias assistivas ou simplesmente mais tempo para elaborar uma resposta. O desafio pedagógico é não confundir “não falar”com “não ter o que dizer”.
Na prática: Durante uma roda de conversa sobre ö lugar onde vivemos, o professor pode apresenta imagens de diferentes espaços da comunidade. Em vez de perguntar apenas “Qual lugar você mais gosta?”, pode oferecer possibilidades: Escolha uma imagem. Aponte. Mostre. Escreva. Desenhe. Fale. Use seu recurso de comunicação. Depois, o professor pode perguntas: “O que essa escolha nos conta sobre você?”. Assim, a comunicação deixa de ser apenas uma resposta oral e passa a ser compreendida como participação.
Reflexão para o professor: Quantas formas de comunicação são reconhecidas como válidas na minha sala?
3. EXPERIMENTAR – E se colocássemos a ideia em prática?
Experimentar permite testar hipóteses, perceber resultados e aprender também com aquilo que não saiu como esperado. Para alguns estudantes com TEA, entretanto, experimentar algo novo pode ser mais acessível quando existe previsibilidade sobre o que acontecerá. Isso não significa retirar a novidade. Significa preparar o caminho para que a novidade possa ser vivenciada.
Na prática: A turma irá realizar uma experiência científica. Antes de começar, o professor pode apresentar uma sequência visual: 1. Pegar o material 2. Misturar 3. Observar 4. Registrar 5. Compartilhar. O estudante pode acompanhar a sequência utilizando cartões, imagens ou marcações. Durante a atividade, o professor pode permitir diferentes formas de registro: desenho; fotografia; palavras; símbolos; seleção de imagens; gravação de áudio; tabela; produção coletiva. O objetivo pedagógico continua sendo o mesmo. O caminho para chegar até ele pode ser diferente.
Reflexão para o professor: Minha adaptação modifica o objetivo da aprendizagem ou cria um caminho mais acessível para alcançá-lo?
4. INVESTIGAR – O que ainda não sabemos?
Uma boa pergunta pode ser o início de uma grande descoberta. Investigar significa não se contentar com a primeira resposta. Aqui existe uma oportunidade importante: os interesses específicos do estudante podem se transformar em pontos de partida para novas aprendizagens.
Não se trata de restringir o estudante ao seu interesse, trata-se de utilizá lo como uma ponte.
Na prática: Um estudante demonstra grande interesse por animais. Em uma proposta sobre medidas, a turma pode investigar: “Qual é o tamanho dos animais que vivem em nossa região?” A partir dessa pergunta, podem surgir: pesquisa; leitura; comparação de medidas; gráficos; produção textual; localização geográfica; classificação dos animais; investigação sobre preservação ambiental. O interesse inicial não limita a aprendizagem. Ele abre uma porta.
Reflexão para o professor: Como posso transformar aquilo que desperta o interesse do estudante em oportunidade de aprendizagem, sem reduzir o currículo ao seu interesse?
5. COOPERAR – O que conseguimos descobrir juntos?
Cooperar não significa necessariamente que todos precisam fazer a mesma coisa, da mesma maneira e ao mesmo tempo. Cooperar significa ter algo a contribuir. Uma atividade em grupo pode ser reorganizada para que diferentes estudantes assumam diferentes funções.
Na prática: A turma precisa construir uma maquete da comunidade. Um estudante pode: pesquisar; outro desenhar; outro recortar; outro organizar os materiais; outro fotografar; outro construir; outro apresentar; outro conferir a sequência das etapas. Para um estudante com TEA, o professor pode antecipar visualmente sua função e combinar previamente o que será esperado. Mas atenção: não é necessário criar uma função “especial”para o estudante. O mais importante é garantir que ele tenha uma função real, significativa e reconhecida pelo grupo.
Reflexão para o professor: O estudante está realmente participando da construção coletiva ou apenas está presente durante a atividade?
6. CRIAR – E se não existisse uma resposta pronta?
Criar é imaginar, combinar, transformar e construir possibilidades. Mas precisamos ampliar nossa ideia sobre o que significa produzir. Um estudante pode demonstrar criatividade por meio de: desenho; escrita; fala; montagem; construção; fotografia; música; movimento; recursos digitais; seleção de imagens; organização de objetos; produção coletiva. Se todos precisam entregar exatamente o mesmo produto, talvez estejamos avaliando mais a capacidade de seguir um formato do que a aprendizagem propriamente dita.
Na prática: Depois de estudar a preservação da água, a turma recebe o desafio: “Como podemos ensinar outras pessoas a economizarem água?” Os estudantes podem escolher diferentes formas de resposta: um cartaz, um vídeo, uma história, uma maquete, uma sequência de imagens, uma apresentação oral, um jogo ou uma campanha. Para o estudante com TEA, o professor pode oferecer modelos visuais, exemplos de produtos e uma estrutura inicial, sem transformar a produção em uma tarefa totalmente pronta.
Reflexão para o professor: Estou avaliando o conhecimento construído ou estou avaliando se todos conseguiram expressá-lo exatamente da mesma maneira?
7. TRANSFORMAR – E agora?
Talvez esta seja uma das portas mais importantes. O que podemos fazer com aquilo que aprendemos? Aprender também significa perceber que podemos agir sobre a realidade. Uma experiência sobre acessibilidade pode levar a uma investigação sobre a escola. Uma conversa sobre convivência pode gerar novos acordos. Uma pesquisa sobre comunicação pode levar a turma a descobrir que nem todos se comunicam da mesma maneira. E uma pergunta pode provocar uma transformação: Nossa escola oferece diferentes maneiras de participar?
Na prática: Depois de estudar inclusão e acessibilidade, a turma pode realizar uma pela escola. Os estudantes procuram: espaços difíceis de acessar; locais muito barulhentos; informações pouco visíveis; ambientes sem sinalização; situações em que as regras não estão claras; momentos em que seria necessário mais tempo ou apoio para participar. Depois, a turma pode propor soluções. Pode criar: sinalizações visuais, mapas, combinados, espaços de organização, recursos de comunicação, materiais acessíveis ou novas formas de participação. Nesse momento, o estudante com TEA deixa de ser apenas alguém para quem a escola precisa “fazer adaptações”. Ele pode tornar-se coautor da transformação do ambiente escolar.
E SE A PORTA ESTIVER FECHADA?
Uma prática inclusiva também exige reconhecer que, às vezes, uma estratégia não funciona. E isso não significa que o estudante “não consegue aprender”, talvez aquela porta não seja, naquele momento, a melhor entrada.
Quando uma atividade não funciona, podemos refletir se:
- O objetivo estava claro?
- A proposta era previsível?
- Havia informação visual suficiente?
- O estudante compreendeu o que deveria fazer?
- A linguagem utilizada estava acessível?
- Havia tempo suficiente?
- O ambiente estava favorecendo a participação?
- Existiam diferentes formas de responder?
- O estudante tinha possibilidade de escolha?
- O nível de desafio estava adequado?
Essas perguntas deslocam o foco do “problema do estudante”para a relação entre estudante, tarefa e ambiente. E esse deslocamento pode produzir mudanças importantes na prática pedagógica.
NÃO É ADAPTAR MENOS. É PENSAR MELHOR. Uma educaçãoinclusiva não precisa oferecer uma atividade completamente diferente para cada estudante, mas pode, muitas vezes, oferecer uma mesma experiência com diferentes possibilidades de acesso, participação e expressão.
A pergunta não precisa ser: “Que atividade diferente vou preparar para o aluno com TEA?”. Podemos começar por: posso tornar esta experiência acessível para que mais estudantes possam participar dela?”.
Essa mudança de perspectiva pode beneficiar toda a turma. Um recurso visual que ajuda um estudante com TEA a compreender a sequência de uma atividade também pode ajudar uma criança que está aprendendo a organizar suas ações. Mais tempo para responder pode beneficiar quem precisa elaborar melhor o pensamento.
Uma possibilidade de escolha pode aumentar o envolvimento de diferentes estudantes. Diferentes formas de registrar uma aprendizagem podem revelar conhecimentos que uma prova tradicional não identificaria. A inclusão, portanto, não precisa ser uma adaptação acrescentada depois que a atividade foi planejada, ela pode estar presente desde o início.
UM DESAFIO PARA O PROFESSOR: Na próxima atividade que você planejar, escolha uma aprendizagem que deseja construir com seus estudantes. Depois, pare por alguns minutos e se pergunte:
- OBSERVAR – Como meus estudantes poderão perceber essa aprendizagem?
- CONVERSAR – Como poderão compartilhar suas ideias?
- EXPERIMENTAR – Como poderão colocar o conhecimento em ação?
- INVESTIGAR – Que perguntas poderão fazer? COOPERAR – Como cada estudante poderá contribuir?
- CRIAR – De quantas maneiras poderão demonstrar o que aprenderam?
- TRANSFORMAR – O que poderão fazer com esse conhecimento no mundo real?
E acrescente uma oitava pergunta:
- ACESSIBILIZAR – O que preciso modificar no ambiente, na comunicação, nos materiais, no tempo ou na forma de participação para que todos tenham uma oportunidade real de aprender? Talvez essa seja a porta que estava faltando.
PARA IR ALÉM: O MAPA DAS PORTAS. Antes de iniciar uma proposta, o professor pode fazer um pequeno planejamento:
- Aprendizagem que quero construir: O que espero que os estudantes aprendam?
- Porta de entrada: Por onde essa aprendizagem pode começar?
- Barreira possível: O que pode dificultar a participação de algum estudante?
- Recurso de acesso: O que posso oferecer para reduzir essa barreira?
- Forma de participação: Como o estudante poderá participar?
- Forma de expressão: Como poderá demonstrar aquilo que aprendeu?
- Transformação: O que poderá fazer com esse conhecimento?
Essa pequena pausa no planejamento pode mudar completamente a experiência de aprendizagem. Porque talvez a questãonão seja encontrar a estratégia certa para o estudante com TEA. Talvez seja construir uma escola com portas suficientes para que diferentes estudantes possam entrar, permanecer, participar, aprender e transformar.
Afinal, quantas portas a nossa escola está abrindo? Observar. Conversar. Experimentar. Investigar. Cooperar. Criar. Transformar. Acessibilizar. E, principalmente, continuar abrindo novas portas sempre que uma delas não for suficiente. A inclusão não deve ser encarada como o encontro de um único caminho para todos, mas sim como a construção de possíveis caminhos para que todos possam aprender juntos.
Autora: Dra. Vânia Regina Barbosa Flauzino Machado
Assessora Pedagógica PUFV Cooperativa Sicredi Paranapanema



