Educação para a sustentabilidade

Você está lendo
Educação para a sustentabilidade
Compartilhe esta postagem

Entre compromissos globais e práticas cotidianas

Por Mariana Baião

POR ONDE COMEÇA UMA EDUCAÇÃO VERDADEIRAMENTE SUSTENTÁVEL?

Essa pergunta, aparentemente simples, carrega em si uma complexidade que desafia educadores, gestores, pesquisadores e cidadãos ao redor do mundo. Não se trata apenas de inserir o tema do meio ambiente nas grades curriculares ou de celebrar o Dia da Árvore com atividades pontuais. Trata-se de algo mais profundo, mais estrutural e, talvez, mais urgente do que jamais imaginamos.

Em 2015, a comunidade internacional assinou um compromisso coletivo: a Agenda 2030, com seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Entre eles, o ODS 4 — Educação de Qualidade — e o ODS 13 — Ação Climática — dialogam de forma direta com o campo educacional. Mas será que estamos, de fato, respondendo a esse compromisso? Ou apenas o referenciamos em documentos institucionais enquanto nossas práticas pedagógicas permanecem intactas?

A AGENDA 2030 COMO HORIZONTE 

Os ODS representam um pacto político e ético de enorme relevância. São metas mensuráveis, com prazos definidos, que mobilizaram governos, organizações e sociedade civil em escala global (ONU, 2015). No entanto, é preciso cuidado para que não se tornem apenas um vocabulário de época — palavras que circulam em relatórios e apresentações, mas que não transformam o cotidiano das escolas.

Como lembra o educador e filósofo Edgar Morin, a educação do futuro deverá ser um ensino centrado na condição humana (MORIN, 2000). Essa condição humana, hoje, é inseparável da condição planetária. Vivemos em um tempo em que as crises climáticas, a perda da biodiversidade, a insegurança alimentar e as desigualdades sociais não são fenômenos isolados; são sintomas de um mesmo desequilíbrio sistêmico. Sachs (2009) reforça essa perspectiva ao propor o ecodesenvolvimento como caminho que integra justiça social, prudência ecológica e eficiência econômica — um tripé que a escola também precisa aprender a habitar. A Agenda 2030 pode ser, para os educadores, um espelho: ela nos convida a olhar não apenas para o que ensinamos, mas para como ensinamos, por que ensinamos e para quem ensinamos.

UMA EDUCAÇÃO SUSTENTÁVEL E DA SUSTENTABILIDADE

Aqui reside uma distinção fundamental que merece atenção: há diferença entre uma educação para a sustentabilidade e uma educação que é, ela mesma, sustentável. 

A primeira dimensão é mais conhecida: trata de formar sujeitos conscientes das questões ambientais, capazes de tomar decisões responsáveis diante dos recursos naturais, da produção de resíduos, do consumo e do clima. É a dimensão que aparece nas propostas de educação ambiental, nos currículos integrados, nas hortas escolares e nos projetos de energia renovável dentro das escolas.

A segunda dimensão é menos explorada e acredito que mais radical. Uma educação sustentável é aquela que se sustenta a si mesma no tempo: que não depende apenas de políticas transitórias, de recursos escassos ou de vontades individuais; que cria vínculos, pertencimento, significado. Como aponta Carvalho (2012), a educação ambiental precisa formar sujeitos ecológicos, pessoas capazes de identificar e agir sobre as tensões entre o modo de vida contemporâneo e a sustentabilidade da vida no planeta.

Precisamos nos perguntar sobre isso? Nossas escolas sustentam a vida de quem nelas habita?

A PERSPECTIVA ECOLÓGICA: ALÉM DO MEIO AMBIENTE

Quando falamos em ecologia na educação, frequentemente o imaginário nos leva a florestas, rios e espécies ameaçadas. Mas a ecologia, em sua acepção mais ampla, é a ciência das relações: entre organismos, entre sistemas, entre seres humanos e seus territórios simbólicos e afetivos.

O filósofo Felix Guattari, em As Três Ecologias (1990), propôs que a crise ambiental não pode ser dissociada de uma crise subjetiva e de uma crise social. Para ele, é necessário pensar em três registros ecológicos simultâneos: o do meio ambiente, o das relações sociais e o da subjetividade humana. Uma escola que cuida apenas do primeiro, ignorando os outros dois, perde a complexidade do problema.

Gutierrez e Prado (1999) avançam nessa direção ao propor a ecopedagogia como uma pedagogia da cidadania planetária, que não apenas ensina sobre o planeta, mas educa a partir dele, tornando a Terra um referencial ético e pedagógico central. Nessa perspectiva, educar ecologicamente é também:

  • Cuidar da saúde mental dos estudantes e dos professores.
  • Construir relações de respeito e reciprocidade na comunidade escolar.
  • Valorizar os saberes tradicionais e os conhecimentos locais.
  • Questionar os modos de produção e consumo que estruturam nossas vidas.

Moacir Gadotti (2008), referência central no campo da ecopedagogia, defende que a sustentabilidade não é apenas uma questão ecológica, mas uma questão de cidadania, de democracia e de justiça social. Essa compreensão ampliada é o que nos permite ir além das abordagens superficiais. Já Reigota (2009) complementa ao afirmar que a educação ambiental é, antes de tudo, uma educação política, voltada para a transformação das relações entre os seres humanos e o ambiente.

PERGUNTAS QUE NÃO PEDEM RESPOSTA IMEDIATA

Há perguntas que a educação precisa aprender a habitar, não para respondê-las de imediato, mas para deixar que trabalhem em nós, que nos inquietem, que nos movam. Layrargues e Lima (2014) nos lembram que as macrotendências político-pedagógicas da educação ambiental revelam tensões ainda não resolvidas entre conservação, transformação e emancipação. Nenhuma dessas dimensões prescinde das demais.

Essas perguntas não têm respostas fáceis — ou até não tenham nenhuma resposta, pelo menos não uma única, não uma definitiva. E está tudo bem. A educação que aprende a conviver com a incerteza é, também, uma educação mais honesta com o tempo que vivemos. Como ensina Paulo Freire (1996), a curiosidade crítica e a capacidade de indagação são constitutivas do ato educativo, e não devemos domesticá-las.

POSSÍVEIS CAMINHOS 

Não há fórmula. Mas há direções. Alguns pontos de partida que pesquisadores e educadores têm apontado como promissores são:

  1. Curricularização transversal da sustentabilidade

Não como disciplina isolada, mas como lente que atravessa matemática, história, linguagens e ciências. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) já prevê essa transversalidade; o desafio está em torná-la viva nas salas de aula. Segundo Leff (2001), a racionalidade ambiental exige uma reorganização do saber que questione os limites das disciplinas tradicionais.

  1. Aprendizagem baseada em territórios

Aproximar os estudantes de suas realidades locais, dos rios que banham suas cidades, das comunidades que habitam seus bairros, das histórias que constroem seus lugares. O global só faz sentido quando ancorado no local. Tristão (1999) já apontava que a educação ambiental de qualidade começa pelo reconhecimento do lugar como espaço de pertencimento e de aprendizagem.

  1. Pedagogias e saberes plurais

Reconhecer que o conhecimento não tem um único endereço. As epistemologias do sul, como propõe Boaventura de Sousa Santos (2010), nos alertam para a necessidade de ouvir vozes historicamente silenciadas: indígenas, quilombolas, ribeirinhos, camponeses. Esses grupos carregam saberes milenares sobre convivência com a natureza que nenhum manual acadêmico consegue substituir.

  1. Formação docente continuada e reflexiva

Professoras e professores não podem transmitir o que não viveram. A formação continuada precisa incluir espaços de reflexão sobre práticas, de diálogo sobre valores, de encontro com a própria história de cada educador. Freire (1996) nos lembra que ensinar exige reflexão crítica sobre a prática, e esse movimento precisa ser permanente, coletivo e acolhido institucionalmente.

DO GLOBAL AO LOCAL: SEMENTES QUE JÁ ESTÃO BROTANDO

Falar de sustentabilidade na educação sem olhar para o que já está sendo feito seria uma incompletude. E há, bem perto de nós, experiências concretas que merecem atenção. E conecto o tema ao nome da coluna: sementes que, lançadas na terra, germinam, brotam e dão flores e frutos.

O Sicredi, por meio do Programa A União Faz a Vida (PUFV), há mais de três décadas, une cooperativismo e educação de uma forma que vai além de projetos pontuais. O programa conecta escolas, professores e comunidades em torno de valores que são, em essência, os mesmos que a Agenda 2030 nos convoca a praticar: cooperação, pertencimento, responsabilidade coletiva e cuidado com o futuro. Não por acaso, esse percurso foi objeto de pesquisa acadêmica rigorosa. O livro Olhares sobre a Educação: a dinâmica do Programa A União Faz a Vida na contribuição ao alcance dos ODS da Agenda 2030, organizado pela Profª Dra. Mariulce da Silva Lima Leineker, pelo Prof. Dr. Pablo Jonas Camilo e pelo Prof. Dr. Silvio Ricardo Munari Machado, com supervisão de pesquisadores da UNICENTRO, UNIOESTE e UFSCar, investiga como uma iniciativa educativa local pode dialogar com compromissos globais, respondendo à pergunta que atravessa toda a obra:

COMO A EDUCAÇÃO PODE SER, DE FATO, UM CAMINHO PARA A SUSTENTABILIDADE E A JUSTIÇA SOCIAL?

O Capítulo 2 da obra analisa especificamente a contribuição do PUF para o ODS 4, aquele que trata de garantir educação de qualidade, inclusiva e equitativa para todos. Já o Capítulo 3 propõe a bela metáfora do devir-abelha e a sociedade pólen: formadores de professores como agentes que polinizam, que carregam o conhecimento de um lugar ao outro, fecundando novos saberes e novas práticas. Essa imagem ressoa com o que Gadotti (2010) chama de pedagogia da terra: uma educação que brota do chão, que tem raízes, que se conecta ao vivo.

Essa experiência nos mostra que os compromissos globais não precisam ficar apenas nos discursos institucionais. Eles podem chegar ao chão da escola, na forma de uma roda de conversa, de um projeto comunitário, de uma atividade que faz um aluno perceber que ele também é responsável pelo mundo que está sendo construído.

UMA FERRAMENTA CONCRETA PARA O EDUCADOR

Para quem quer dar o próximo passo na sala de aula, o Sicredi disponibiliza a plataforma Cada Gesto Educa: um espaço onde professores podem encontrar atividades práticas, materiais e orientações para trabalhar temas de sustentabilidade, cooperação e cidadania com seus alunos, de forma integrada ao currículo. A plataforma concretiza o que Guimarães (2016) chama de educação ambiental crítica: aquela que ultrapassa o nível da sensibilização e propõe ação transformadora no cotidiano escolar. Acesse: cadagestoeduca.sicrediesmurfs.com.br. O Sicredi nos mostra que cooperação não é um valor abstrato. É uma prática. E práticas, quando bem cultivadas, tornam-se cultura.

SEMEAR, MESMO SEM VER A COLHEITA

Há algo de profundamente sustentável no ato de plantar sem ter a certeza de colher. Quem educa sabe disso. A transformação que uma boa aula provoca pode levar anos para se manifestar, e talvez nunca retorne ao educador que a iniciou. A Agenda 2030 tem prazo. A educação, não. Seu tempo é outro, mais lento, mais profundo, mais difícil de medir em indicadores. Como nos lembra Boaventura de Sousa Santos (2010), vivemos uma crise de civilização que exige não apenas novas respostas, mas novas perguntas. E a escola é, ainda, o lugar onde as perguntas mais importantes podem nascer.

Que sementes você está lançando e que solo está preparando para que elas germinem? A resposta mais honesta é: não sabemos ao certo. Mas continuamos plantando.

Referências Bibliográficas

BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília: MEC, 2018.

CARVALHO, Isabel Cristina de Moura. Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico. 6. ed. São Paulo: Cortez, 2012.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

GADOTTI, Moacir. Educar para a sustentabilidade: uma contribuição à Década da Educação para o Desenvolvimento Sustentável. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 2008.

GADOTTI, Moacir. A Carta da Terra na educação. São Paulo: Editora e Livraria Instituto Paulo Freire, 2010.

GUATTARI, Félix. As Três Ecologias. Campinas: Papirus, 1990.

GUIMARÃES, Mauro. Por uma Educação Ambiental crítica na sociedade atual. Revista Margens Interdisciplinar, v. 7, n. 9, p. 11-22, 2016.

GUTIERREZ, Francisco; PRADO, Cruz. Ecopedagogia e Cidadania Planetária. São Paulo: Cortez; Instituto Paulo Freire, 1999.

LAYRARGUES, Philippe Pomier; LIMA, Gustavo Ferreira da Costa. As macrotendências político-pedagógicas da educação ambiental brasileira. Ambiente & Sociedade, São Paulo, v. 17, n. 1, p. 23-40, jan./mar. 2014.

LEFF, Enrique. Saber Ambiental: sustentabilidade, racionalidade, complexidade, poder. Petrópolis: Vozes, 2001.

LEINEKER, Mariulce da Silva Lima; CAMILO, Pablo Jonas; MACHADO, Silvio Ricardo Munari. Olhares sobre a Educação: a dinâmica do Programa A União Faz a Vida na contribuição para o alcance dos ODS da Agenda 2030. Sicredi; Central Sicredi PR/SP/RJ, 2024.

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília: UNESCO, 2000.

ONU. Transformando Nosso Mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Nova York: ONU, 2015.

REIGOTA, Marcos. O que é Educação Ambiental? 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 2009.

SACHS, Ignacy. A terceira margem: em busca do ecodesenvolvimento. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A gramática do tempo: para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2010.

TRISTÃO, Martha. Universidade, educação ambiental, qualidade de vida. In: PONTUSCHKA, N. (Org.). Um olhar sobre o Campus. São Paulo: Faculdade de Educação/USP, 1999.

Mais Conteúdo Sobre Artigos, Reflexões

Antes de ensinar, é preciso se conectar: o vínculo como base da educação que transforma
A história da Cooperativa Escolar Futuro Mirim de Umuarama – PR 
A sociedade não cresce sozinha
Sementes de transformação