A Base Nacional Comum Curricular homologada em 2017, em suas mais de 400 páginas, propõe uma discussão acerca do termo Educação Integral afirmando que a Educação Básica deva visar “à formação e ao desenvolvimento humano global, o que implica compreender a complexidade e a não linearidade desse desenvolvimento, rompendo com visões reducionistas que privilegiam ou a dimensão intelectual (cognitiva) ou a dimensão afetiva”. Mas o que de fato significa promover a Educação Integral no contexto da escola? Como promover aprendizagens significativas que deem conta de atender as dimensões intelectual e afetiva de modo indissociável?

Vejamos uma história que colabora para que se possa compreender a postura do educador frente a essa situação e que possibilita entender que as aprendizagens ocorrem não somente com os materiais didáticos, com os livros ou com as aulas, mas, e principalmente, com as relações que se estabelecem entre professor e aluno no cotidiano da escola.

Era o período de apresentações culturais na escola. Fiquei responsável por uma apresentação musical com meus alunos do 4º ano do Ensino Fundamental I de uma escola municipal onde trabalhava naquele ano. Iríamos apresentar a música Depende de nós, do grupo Balão Mágico. Em alguns momentos, ensaiávamos na sala de aula e, em outros, nos deslocávamos para o salão da escola, onde geralmente aconteciam os eventos por ser um espaço grande e confortável.

Desloquei-me com meus alunos para o salão a fim de fazer um dos primeiros ensaios. O salão, naquele momento, estava cheio de caixas com merenda escolar. Aqueles alimentos nas caixas não pertenciam à escola municipal, mas sim, à escola estadual, que também utilizava daquele prédio para as aulas do ensino médio. Passamos aproximadamente uma hora dentro do salão e retornamos para a sala de aula para fazermos um “fechamento”, um diálogo sobre a apresentação e, em seguida, fazermos nosso intervalo para o lanche.

Quando entramos na sala, dois garotinhos, alunos daquele quarto ano, abordaram-me à porta dizendo:

– Professor, o Eduardo roubou um pacote de bolacha!

Rapidamente, voltei os olhos em direção ao Eduardo, que se entregava ao me olhar com lágrimas nos olhos e com marcas de que o pacote de bolachas, pego naquela caixa de merenda escolar, encontrava-se debaixo de sua blusa.

Para não constrangê-lo e também não criar nenhuma situação desconfortável para ninguém, fingi não estar percebendo nada e decidi ignorar por alguns instantes aquela situação. Minutos depois, decidi liberar a turma para que pudessem fazer seu intervalo para o lanche, convidando o garoto Eduardo para permanecer ali na sala comigo por mais alguns minutos. Ele permaneceu e, durante poucos minutos, conversamos sobre o ocorrido. Tive com ele uma conversa que todo professor, naquela situação, teria, orientando-o e explicando-o que “não se deve pegar nada escondido” principalmente por se tratar de um lanche que não era da nossa escola.

Após aqueles poucos minutos de conversa, recolhi o pacote de bolacha – confesso que com um grande aperto no peito – e despedi-me de Eduardo na promessa de que no outro dia ele teria um pacote de bolachas igual àquele, porém comprado pelo professor, “pago com dinheiro de trabalho”, como falei a ele.

No outro dia, lá estava eu com o pacote de bolachas na mão, conversando com o garoto próximo à quadra de esportes da escola, explicando, falando, orientando sobre aquela situação novamente.

Os anos se passaram, deixei de trabalhar na escola, mudei-me de cidade e nunca mais encontrei Eduardo. Assim como todos os outros alunos que passam pela vida do professor, jamais saberia para onde pudera ter ido o Eduardo, a Maria, o Pedro…

Era 26 de outubro de 2014, data que marca o aniversário da minha cidade natal. Nessa data, o município estava em festa. Uma banda musical e muitas pessoas tomavam conta da rua principal, à noite. Eu estava com minha sobrinha nos ombros, prestigiando a festa, quando avistei de longe um rosto familiar. Lá estava o Eduardo. Crescido, alto, ainda magro. Aproximei-me do garoto para melhor reconhecê-lo. Cumprimentei-lhe e, por alguns minutos, conversamos sobre a vida, sobre o passado. Perguntou-me dos meus trabalhos. Questionei-lhe sobre os seus afazeres, sobre sua vida. Dissera-me que havia se mudado. Tivera problemas com uma pessoa que lhe ameaçou de morte, por isso, resolveu se mudar dali. Estava de passagem. Agora com 19 anos, seria pai em breve, mas não se casou com a mãe de seu filho, achava que ainda era cedo e novo para isso, mas estava feliz por saber que seria pai.

Despedi-me, com um breve abraço e uma tapinha nas costas. Desejei-lhe sucesso na vida e saúde ao primogênito que estava para chegar. Virei as costas e, ao me despedir, ouvi-lhe dizer, com um sorriso torto no canto da boca:

– E a bolacha, hein, professor!?

Olhei pra ele e, sem palavras, afastei-me sorrindo.

Talvez Eduardo não mais se lembrava dos numbers, colors e animals ou outros tantos conteúdos que exaustivamente procurei “ensinar” a ele e a todos de sua turma em minhas aulas de inglês, porém, ficou claro para mim que consegui ensiná-lo com meu gesto, com as palavras, com o conselho e com o exemplo, sem broncas, represálias, castigos pelo feito que cometera.

Eduardo aprendera comigo. Eu ensinei o garoto o que realmente ele precisava aprender naquele momento.

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