“Os contos de fadas, considerados, até pouco tempo, por pais e até mesmo educadores, como irreais, falsos e cheios de crueldade, são, para as crianças, o que há de mais real, por lhes falar, em linguagem mágica, o que há de mais real dentro delas”. – Bruno Bettelheim

Os contos de fadas sempre fizeram parte de nossas vidas, porém você sabe qual o real significado desses contos na percepção das crianças e o porquê deles serem muito mais que uma simples forma de entretenimento?

No livro A psicanálise dos contos de fadas, o autor Bruno Bettelheim afirma que os contos de fadas são únicos não só como uma forma de literatura, mas como uma obra de arte que se faz entender de forma clara para a criança. Os contos de fadas, diferentemente de qualquer outra obra de literatura, direciona a criança para a descoberta de sua identidade e caráter.

O livro mostra a importância dessa descoberta, dando a entender que uma vida recompensadora está ao alcance de todos que estão dispostos a correr riscos, porém aqueles que recusarem se auto descobrir estarão destinados a uma vida mediana – isso se um destino pior não recair sobre eles. O autor ainda afirma que os significados mais profundos dos contos de fadas ficam conosco conforme o nosso crescimento, se transformando e se resinificando em diferentes momentos da nossa vida.

A contação de histórias ocorre dentro do ambiente escolar há muitos anos, mas muitos professores ainda não descobriram o quanto as histórias podem ajudá-los na hora da aprendizagem.

Por que surgiram os contos de fadas?

Estima-se que os contos de fadas destinados às crianças surgiram em meados do século XVII na França. Porém, foi somente século XVIII, com as contribuições dos irmãos Grimm, que escreveram os principais contos de fadas que conhecemos, que se consolidou o que é chamado hoje de Literatura Clássica Infantil.  

Entre a Idade Média e a Idade Moderna, iniciou-se uma mudança no conceito do papel da criança dentro da família. A criança começou a ser afastada do meio de produção, e passou a ser vista como alguém inocente e dependente dos adultos para lhe ensinar as normas da sociedade. Houve então um entendimento de que era dever e responsabilidade dos adultos moldar as emoções e ideias das crianças. É neste contexto que a escola e a literatura surgem com o objetivo de atender essas questões.

Os contos de fadas, ao longo do tempo, não modificaram sua estrutura básica: situação inicial – conflito – processo de solução – sucesso final. O conflito sempre girando em torno do bem e do mal, mostrados nos contos como duas características totalmente opostas e impossível de coexistir, ou seja, ou o personagem era 100% bom ou 100% mau. Nos contos, as emoções humanas são transformada em personagens imaginários de um mundo de fantasia, esses personagens representam nós mesmos e o mundo interior, razão pela qual os contos de fadas possuem um apelo tão grande para as pessoas de qualquer idade.

O uso desse mundo de imaginação para resolver situações problemáticas tornam as questões de fácil entendimento para as crianças, que usam da imaginação e criatividade para dar vazão à sua curiosidade sobre o mundo.

Como os contos de fadas funcionam dentro do processo de ensino

O conto de fadas é um mecanismo imprescindível, impulsionador de aprendizagem, uma vez que proporciona à criança um desenvolvimento emocional, social e cognitivo único.

Primeiramente, a leitura em voz alta que ajuda a despertar a sensibilidade da criança para diferentes formas de linguagem e tem o efeito positivo em relação à chamada atenção seletiva, ou seja, a capacidade de se desligar de outras fontes de estímulo, mantendo-se concentrada na mesma atividade por um longo período de tempo.

O maniqueísmo que divide os personagens em mocinhos e vilões, facilita para a criança a compreensão de valores básicos da conduta humana ou convívio social. A criança exercita sua criticidade, sua percepção temporal (graças ao “era uma vez”, que da ideia de algo que aconteceu no passado, mostrando a existência do antes, do agora e do depois), a sua expressividade através de questionamentos e reflexões sobre os acontecimentos da história, além de passar a conhecer mais de si própria enquanto busca a sua identificação pessoal com os personagens.

Além disso, muitos autores defendem que os contos de fadas também funcionam como uma válvula de escape emocional para as crianças, permitindo que elas aprendam a enfrentar e lidar com os seus próprios medos como rejeição, rivalidade ou inferioridade. Ensinando que existem meios de lidar com os conflitos e que achar soluções e saídas para o “final feliz” é sempre possível.

Um exemplo disso, é a história de João e Maria, que pode se relacionar com crianças que teimam em se agarrar aos pais, quando a época de dar os seus primeiros passos sozinhas no mundo chega. O conto transforma o medo em um personagem, o da bruxa que quer devorá-las, mas ao mesmo tempo que as confere segurança, afinal João e Maria derrotaram o maior vilão de todos, a bruxa, e saíram vitoriosos.

Além dos benefícios de construção de percepção do mundo, valores e comportamentos da crianças, é de uma suma importância que o educador valorize o trabalho com literatura com as crianças desde o início da vida escolar para que haja a estimulação da leitura e da escrita, e que os alunos passem a ver os livros como uma atividade prazerosa, tornando tal atividade um hábito.

Como trabalhar com os contos infantis em sala de aula?

Ao trazer a literatura infantil para sala de aula, o professor estabelece uma relação de conversa com o aluno, que engloba a sua cultura e contexto. A contação de histórias em sala de aula permite que a criança trabalhe com o conto a partir de seu próprio ponto de vista, trocando opiniões sobre ela, assumindo posições frente aos fatos narrados, defendendo atitudes e personagens, acrescentando detalhes, inventando novos personagens ou apontando fatos que passaram despercebidos por quem estava lendo a história.

Para desenvolver um programa de leitura equilibrado é preciso, antes de tudo, respeitar o tempo das crianças, estimulando a leitura em poucas doses, para que essa não se torne uma tarefa pesada e forçada. Também é preciso observar a idade cronológica da criança e principalmente o estágio de desenvolvimento de leitura em que ela se encontra, para escolher o tipo de obra mais adequada. Depois disso, é só aproveitar todas as portas que essa prática irá abrir no aprendizado das crianças!