Fernanda Furia é fundadora do Playground da Inovação – consultoria de Inovação em Psicologia e Educação. Ela é mestre em Psicologia de Crianças e Adolescentes pela University College London e consultora para o desenvolvimento de produtos e serviços voltados para educação, saúde mental e tecnologia.  

Cada vez mais se fala na influência que a tecnologia terá na área de educação. Por esta razão, convidamos a Fernanda para conversar com a gente sobre educação e inovação na era digital. Confira a entrevista completa abaixo:

1. Você tem uma palestra sobre inteligência emocional na era digital. O que é a inteligência emocional e de que forma a era digital impacta no desenvolvimento dessa característica?

FF: Muito se fala da necessidade de desenvolver uma inteligência emocional para lidar com as complexidades do mundo atual. Entender as próprias emoções, trabalhar em grupo, resolver problemas, ser criativo e tomar decisões adequadas são alguns exemplos de competências mais do que urgentes atualmente. Infelizmente, existe uma escassez de informação e de reflexão sobre quais são as habilidades sociais e emocionais necessárias especificamente no contexto digital.

O Fórum Econômico Mundial propôs o termo “Inteligência Emocional Digital” em 2016, mas limitou a sua definição somente à capacidade de uma pessoa de ser empática e capaz de construir bons relacionamentos online. Porém, é necessário muito mais do que isso para lidarmos com o avanço exponencial de tecnologias avançadas e com os seus impactos na vida das pessoas. É preciso ampliar os horizontes e transpor estas habilidades também para o âmbito digital. Por isso, aprofundei a definição de Inteligência Emocional Digital para abranger todo um conjunto de habilidades sociais e emocionais aplicadas ao mundo digital. Entenda melhor sobre este importante tema no novo infográfico do Playground da Inovação:

 

2. O contato precoce com as tecnologias pode ser um fator de promoção ou interferência no desenvolvimento das crianças?

FF: Depende. Normalmente, da maneira como as tecnologias têm sido utilizadas hoje na primeira infância, acredito que elas podem interferir negativamente no desenvolvimento infantil.

Presenciamos uma explosão de tecnologias que estão, ao mesmo tempo, nos deslumbrando e nos soterrando. Os bebês e as crianças pequenas precisam de contato humano, de conversa, de olho no olho e de toque para suprir as suas necessidades emocionais e para se desenvolver de forma saudável. Se esta parte começa a ficar comprometida por conta do excesso de uso tecnológico realmente temos um problema que afetará a sociedade como um todo no futuro.

Os adultos precisam ter a capacidade de (1) discernir as boas tecnologias daquelas que viciam mais, (2) de não se deslumbrar com as novidades tecnológicas e, também, (3) de perceber quais tecnologias podem nos beneficiar. É uma tarefa difícil, mas possível e necessária.

3.Você conhece a metodologia Waldorf? Dentro dessa metodologia de aprendizagem, os alunos não devem ter contato com o computador até o ensino médio, pois a metodologia acredita que o computador força um pensamento analítico que não é o ideal antes da adolescência. Como você se sente em relação a essa afirmação?

FF: Na minha experiência, toda a posição que acaba sendo radical tanto para um lado quanto para o outro tende a ser perigosa. O mundo tem se tornado cada vez mais digital e precisamos ajudar as novas gerações a desenvolver uma visão crítica com relação à isso. Ou seja, ajudá-las a entender a lógica computacional, as suas aplicações, riscos e benefícios para a Humanidade. Experimentar novas tecnologias antes da adolescência com foco educacional no cotidiano da escola pode ser uma excelente oportunidade de abrir este campo de aprendizado crítico. Isso é muito diferente dos joguinhos com os quais as crianças brincam em casa.

Mas, não acho que uma escola tenha que necessariamente ter um foco grande em tecnologia. Se pensarmos em uma escola que não tem uma estrutura tecnológica tão eficiente, mas que oferece formas flexíveis de ensino, atividades ao ar livre, projetos de pesquisa na comunidade e outras alternativas, ela pode ser mais eficiente na formação de um cidadão para o século 21 do que uma escola super tecnológica.

Acho que o acesso às tecnologias educacionais não é necessariamente o fator decisivo na qualidade de uma escola. Hoje em dia, é muito mais importante uma instituição capaz de oferecer maneiras novas de ensinar e de aprender que transcendem o uso da tecnologia. Essa nova maneira tem a ver com uma mudança de mentalidade sobre o que é realmente necessário a partir de agora na formação de um cidadão e o que não nos serve mais. É uma transformação na estrutura e nas bases não só da escola, mas da sociedade como um todo.

É claro que as novas tecnologias são importantes para aproximar o mundo fora da escola do cotidiano escolar. Além disso, elas podem favorecer diferentes formatos de aprendizagem e tornar o ensino mais divertido e com mais sentido para as crianças e adolescentes.

Outro ponto importante que a ser levantado é a exclusão digital, ou seja, o abismo entre quem tem acesso às tecnologias e quem não tem. Se a falta de acesso às ferramentas educacionais for muito grande, isso pode sim impactar negativamente o desenvolvimento de uma criança.

4. O seu blog é todo sobre a ligação entre brincar e inovar, quando foi que você começou a perceber que essas duas ações andavam juntas?

FF: Na verdade, o meu blog é resultado da interseção de 5 áreas: Psicologia, Tecnologia, Inovação, Educação e Ciência do Brincar. Eu percebi a ligação entre o Brincar e o Inovar quando eu comecei a minha transição de carreira em 2011. Depois de 17 anos atuando como psicóloga clínica, decidi parar de atender no consultório e me aventurar em outras áreas onde o meu conhecimento sobre o ser humano, em especial sobre as crianças e adolescentes, pudesse ter ainda mais impacto na sociedade.

O meu primeiro curso sobre inovação foi na área de Design Thinking (ESPM-SP), uma abordagem de resolução de problemas que tem sido muito utilizada em grandes empresas e, mais recentemente, em algumas escolas. Logo no primeiro dia de aula vi ligações muito grandes entre o brincar e o desenvolvimento de um comportamento inovador: ser criativo, ter iniciativa, ser questionador, se arriscar, fazer ligações improváveis, ter uma tendência a experimentar e a fazer, lidar melhor com erros, ser perseverante, ser mais colaborativo, etc. Enquanto a criança brinca livremente ela exercita todas estas habilidades.

A partir desta minha percepção eu me aprofundei no assunto, criei o blog e fui conhecendo algumas iniciativas nesta mesma linha, como o Lifelong Kindergarten no MIT. É um departamento criado especialmente para estimular as pessoas a criarem produtos baseadas na experiência lúdica e inspiradas nas práticas utilizadas no jardim da infância.

4. No seu vídeo “Evolução na Educação: como o modelo tradicional pode mudar para melhor?”, você diz que a criança não está mais aprendendo tanto, pois não está tão interessada.  Que ações você sugeriria para os professores adotarem a fim de criar essa interação com os alunos em sala de aula? Que tipos de atividades eles podem usar para ensinar e engajar os alunos com a matéria?

FF: Como o formato de ensino na maioria das escolas praticamente não mudou desde a Revolução Industrial, existe um descompasso entre a forma como a escola ensina e a maneira como as crianças e adolescentes aprendem na era Digital. Esta situação tem gerado um desinteresse por parte dos alunos na vida escolar, especialmente os adolescentes.

Atualmente, algumas práticas inovadoras têm sido usadas em diferentes países, inclusive no Brasil, para aumentar o engajamento dos alunos: metodologias ativas, jogos em geral, novas configurações da sala de aula, projetos com foco em resolução de problemas reais ligados à vida das crianças, gamificação, etc. Porém, acredito que antes dos professores aplicarem novas práticas em sala de aula é necessária uma mudança de mentalidade sobre o ato de ensinar e de aprender. É fundamental que haja uma mudança de paradigma que revê o papel do professor, a participação do aluno, as relações hierárquicas entre os alunos e professores/gestores, arquitetura escolar, etc.

5. Segundo uma pesquisa realizada em 2013 pelo MEC, os jovens não percebem utilidade no conteúdo das aulas. As disciplinas de língua portuguesa e matemática são consideradas as mais úteis por 78,8% dos alunos. Já geografia, história, biologia e física são consideradas descartáveis para 36% dos entrevistados. De que forma uma educação mais lúdica e incorporada com a tecnologia poderia alterar essa percepção?

FF: As práticas lúdicas são muito eficazes para tornar o aprendizado mais leve e com mais sentido para o aluno. Por exemplo, existem escolas que criam missões em grupo com temas específicos para os alunos onde vários conteúdos de história, geografia, química, etc, são abordados de forma criativa e divertida, atiçando a curiosidade e o senso de descoberta da criança. Isto gera um prazer por aprender, sentimento que torna o processo de aprendizagem mais eficaz e sustentável ao longo do tempo.

6. Você fez uma matéria falando sobre “Kidulting”, sobre adultos que “não querem crescer” e preferem consumir produtos com design mais lúdicos. Poderia se aprofundar um pouco no assunto? Quais os fatores que estão por trás desse fenômeno?

FF: Segundo o relatório ”Trend Watch 2017” publicado pela Landor, o Kidulting é uma tendência de comportamento que vem ganhando força nos últimos anos, principalmente entre a geração nascida na década de 80 (Geração Y ou Millennials). Kidulting tem origem na fusão de duas palavras: Kid (criança) + Adult (adulto). Este termo é usado para definir um adulto que não quer crescer ou se comportar como adulto.

Normalmente, são pessoas que consomem produtos com design e propostas mais infantis e dão preferência às experiências mais divertidas e que remetam às lembranças da infância e da adolescência. Muitas marcas já estão focando suas estratégias para criar serviços e produtos inovadores que possam atender às necessidades deste perfil de público. Arquitetura inspirada em brinquedos, colônia de férias voltadas para adultos, cadernos de colorir para adultos, festas de aniversário com temas infantis, coleções de moda atuais inspiradas em design lúdico, espaços públicos que viram playgrounds e intervenções urbanas infantis são reflexos de que o brincar está cada vez mais presente em várias esferas da sociedade.

Acredito que esta necessidade por formas mais leves e divertidas de lidar com a vida pode estar relacionada com o fato do mundo estar cada vez mais complexo, instável e ameaçador. Terrorismo, guerras, violência urbana, catástrofes ambientais, escândalos de corrupção e epidemias tornam as pessoas mais inseguras. Nas últimas décadas houve um aumento nos índices de depressão, transtorno bipolar, síndrome do pânico e de suicídio em todas as faixas etárias. Diante deste contexto o Brincar, em suas variadas formas, promove: sentimento reconfortante de lembrança dos bons momentos da infância, maior vínculo afetivo entre as pessoas, efeito antidepressivo, redução a pressão das regras e da perfeição, estimulação a nossa necessidade de ser criativo, comunicação com a “criança interna” das pessoas, encontro com o seu propósito de vida, impulso para a Inovação.

7. Essa é uma tendência que no futuro irá melhorar as relações sociais ou você acha que será preciso dar um passo para trás e reverter esse quadro?

FF: Como sempre, o Kidulting, pode ter um impacto positivo e negativo ao mesmo tempo. Ele pode ser uma ótima oportunidade da sociedade desenvolver formas mais criativas de aprender, trabalhar e viver. Pode ser ainda uma maneira das pessoas se conectarem mais entre elas e também com os próprios desejos e necessidades em um mundo pautado pela velocidade extrema. Por exemplo, os estudos do psicólogo Stuart Brown mostram a necessidade de analisarmos a nossa autobiografia do brincar para encontramos o nosso propósito de vida.

Por outro lado, se esta tendência se encaminhar predominantemente para uma negação das responsabilidades do mundo adulto teremos um problema sério. Acho que uma forma de evitar isso, é dar espaço para as crianças serem crianças dentro do tempo adequado. Dar ao bebê e à criança a oportunidade de brincar muito, de ser espontânea, de ter liberdade de se movimentar, de demonstrar os sentimentos sem serem julgadas e de errar podem ser antídotos para o medo de amadurecer.

8. A era tecnológica pode influenciar e reforçar ainda mais os jovens a crescerem com esse comportamento infantil?

FF: Mais uma vez, depende. O excesso de tecnologia pode tirar dos jovens a oportunidade de observar o mundo, de exercitar as relações humanas e de sentir que a vida adulta apresenta desafios que podem ser muito enriquecedores. Por outro lado, projetos importantes que usam as tecnologias para o bem da Humanidade podem ser estímulos riquíssimos para o jovem que está em busca de si e de um propósito na vida.

Não deixe de conferir também a palestra sobre a importância do brincar para inovar que a Fernanda deu no Encontro Interestadual Cooperjovem 2017.