Reflexões do ensino híbrido no processo de ensino e aprendizagem

Com a pandemia, vivenciamos uma ruptura no modelo tradicional de ensinar e aprender. De repente, os encontros entre professores e alunos saíram de dentro das salas de aula e passaram a acontecer remotamente pela internet, televisão e até rádio. Agora, com a retomada das aulas, fala-se muito sobre mais um método: o ensino híbrido.

Apesar de estar no centro das atenções, o modelo híbrido não é novo: desde 2004 é regulamentado pelo Ministério da Educação. Com o atual cenário, ganhou forças e surge como alternativa de ensino, já que mescla diferentes formatos de aprendizagem – das mais tradicionais, como leituras e exposição de conteúdos, às mais novas, como debates e pesquisas exploratórias.

Adoção da tecnologia

Ao mesmo tempo em que a tecnologia possibilitou uma rápida adaptação das aulas para o ambiente remoto, a falta de infraestrutura, inclusão digital e conectividade trouxeram desafios para vários professores. No entanto, a percepção de que a tecnologia pode ser benéfica para o processo de aprendizagem é cada vez mais comum.

Foi o que mostrou um relatório do Instituto Clayton Christensen, que há mais de uma década estuda o potencial da aprendizagem on-line nos Estados Unidos. A amostra considerou 110 entrevistados de 19 estados, entre professores, coordenadores e diretores.

A grande maioria dos entrevistados, 94%, respondeu que usa alguma forma de aprendizado on-line – percentual semelhante tanto em escolas públicas (91%) como em escolas particulares (96%). Entre eles, a maioria (79%) diz usar atividades on-line que estejam conectadas com atividades off-line, o que é uma característica do ensino híbrido.

Quando perguntados sobre as principais motivações para o uso de tecnologia em sala de aula, as opções mais apontadas foram:

  • facilitar o aprendizado personalizado (72%)
  • promover a competência e aprendizagem (67%)
  • melhorar os resultados acadêmicos (62%)

Ainda segundo a pesquisa, a maioria dos professores é mais propensa a usar a tecnologia apenas como complemento ao ensino tradicional. Mesmo assim, eles reconhecem os benefícios do formato. Para 72%, o uso de novas tecnologias em sala de aula melhora o aprendizado emocional e social dos alunos, e 79% dizem sentir os estudantes mais engajados com conteúdo.

As atividades on-line acontecem em vários momentos durante as aulas. Pode ser dentro de sala de aula, em uma estação on-line (22%), os alunos optam pelo on-line ou não em sala (22%), em um laboratório de informática na escola (63%), em uma área aberta de aprendizado on-line na escola, como dentro da biblioteca (58%), em casa (2%) e ainda em outros espaços.

Afinal, o que é ensino híbrido?

No ensino híbrido, existe uma mescla entre o aprendizado do aluno em momentos sozinho, que pode acontecer em um ambiente virtual, com o ensino presencial, onde há a valorização da interação entre alunos e professores, além da exposição de conteúdos e realização de atividades. São momentos que complementam a educação, oferecendo maior personalização de estudos e autonomia ao aluno.

Outra característica do modelo híbrido é a presença das metodologias ativas. Como conta o educador José Moran, “hoje podemos redesenhar as melhores combinações possíveis na integração de espaços, tempos, metodologias e tutoria para oferecer as melhores experiências de aprendizagem a cada estudante, de acordo com suas necessidades e possibilidades.”

Para explicar um pouco mais sobre o modelo, compartilhamos uma entrevista realizada com o professor Moran pela Universidade Anhembi Morumbi:

O ensino híbrido na prática

A adoção do modelo híbrido nas escolas passa por três grandes desafios: infraestrutura, acesso à tecnologia e formação docente. Por ser uma novidade em grande parte das escolas, educadores e alunos ainda estão se adaptando ao uso da tecnologia e ao formato. Conversamos com Andreia Aparecida Rodrigues de Lima, pedagoga e diretora escolar, sobre os desafios e percepções do ensino híbrido e, para ela, a diferença é a experiência com a tecnologia adquirida em 2020.

É importante notar que, ao contrário do que está sendo empregado em várias escolas, o ensino híbrido vai além de dividir os alunos entre aulas presenciais e ensino remoto em um sistema que se aproxima mais das aulas semipresenciais.

A aplicação do ensino híbrido depende da adaptação da sala de aula, do currículo escolar, das formas de avaliação e da forma de ensinar.

No modelo híbrido, ganha-se mais flexibilidade e liberdade nos momentos de estudo, ao mesmo tempo em que aumenta a responsabilidade do aluno em acompanhar o conteúdo.

Outro fator relevante sobre o ensino híbrido é que ele é uma miscigenação de metodologias e, nele, o local de aprendizagem não fica restrito à sala de aula, mas pode incluir também:

  • Laboratórios
  • Bibliotecas
  • Salas temáticas
  • Estações de aprendizagem
  • Sala de aula invertida
  • Ambientes on-line de aprendizagem

Neste outro artigo, explicamos em mais detalhes como funcionam as modalidades do ensino híbrido.

Como o ensino híbrido pode transformar a educação?

Ainda que a pandemia tenha causado prejuízos para a educação, ficou o aprendizado da busca por alternativas. “Mesmo antes da pandemia estávamos cientes de que a Educação precisava mudar de alguma forma, mas a resistência ao novo e comodismo travavam esse desenvolvimento”, explica a pedagoga Andreia. “Com a pandemia, tivemos que mudar”, completa. A mudança foi abrupta, mas uniu docentes, alunos e a comunidade de aprendizagem em busca de soluções.

O futuro da educação caminha cada vez mais para modelos mais flexíveis e híbridos. O protagonismo dos alunos e a personalização nos estudos reforçaram a sua importância nesse período de aceleração de mudanças. A educação no pós-pandemia não será a mesma, não apenas pelo uso da tecnologia, que para Andreia, é algo que veio para ficar, mas também pela mudança na mentalidade de professores e alunos para testarem novos métodos e formas de ensino.

No momento atual, muitas escolas ainda passam por períodos de incerteza, especialmente sobre o retorno das aulas presenciais. É um contexto que pode auxiliar na implementação do modelo híbrido, unindo atividades em ambientes virtuais com as aulas para oferecer o melhor conteúdo aos alunos. Porém, toda a comunidade escolar tem um desafio pela frente: se integrar no mundo da tecnologia, aprender a compartilhar conhecimentos e se permitir novas experiências, competências fundamentais que o século XXI exige.

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