No início de minha carreira profissional como professor tive a experiência de trabalhar em uma escola de ensino fundamental onde havia crianças muito carentes. Dentre as principais carências encontradas nas turmas estava a falta de alimentação dentro de casa. Algumas crianças, e não eram poucas, tinham muito interesse na escola, pois ali estavam as refeições de que tanto precisavam. Precisavam de abraço, de sorrisos, de apoio, de cultura e aprendizagem…. Mas também de café da manhã, almoço e janta.

O baixo rendimento dos alunos naquela escola, que funcionava em prédio emprestado da igreja, era o resultado das inúmeras carências dos alunos, e era inevitável, enquanto professor, não acostumar com as notas baixas e a pouca participação das turmas nas atividades propostas. Quantos relatos de maus tratos familiares ouvia das turmas… choros sem justificativas, enfrentamentos ao professor, conflitos que surgiam de repente… histórias, muitas histórias…

Eu era professor de inglês daquela garotada. Tinha ainda pouca experiência com o ensino e com a postura que deveria adotar com as crianças, mas o suficiente para entender que naquela escola, diferente das outras que trabalhei naquele ano, deveria realizar um trabalho diferente, que pudesse atender as necessidades daqueles alunos divididos em quatro séries. Talvez ensinar colors, numbers, animals, toys etc, conteúdos tradicionalmente ensinados nas aulas de Língua Inglesa, não fizesse tanto sentido para eles, ou melhor, o modo como eu propunha as atividades não fazia sentido, já que, como disse, alguns não estavam ali para isso, para aprender, mas sim para se alimentar.

Em uma tarde, período em que se concentrava o maior número de aulas que eu tinha naquela escola, aconteceu um fato interessante (ou seria triste?!). Eu estava aguardando o horário para entrar na turma da 4ª série, que ficava ao lado da sala dos professores onde eu estava no momento. Inevitavelmente, não pude evitar ouvir a aula que minha colega estava dando na sala ao lado, abastecida de broncas, gritos e reclamações da não participação da garotada na atividade proposta por ela. Dado o tempo em que deveria iniciar minha aula com a turma, aproximei-me da sala dando sinal à professora de que o tempo havia se esgotado e que, a partir de então, eu assumiria a turma com minha aula de inglês.

Juntando rapidamente seus materiais, a professora despediu-se da turma entregando-a a mim com os seguintes dizeres:

– São todos seus!

Ao entrar na sala, deparei-me com a lousa toda escrita e os alunos terminando de copiar um “problema matemático”, como estava nomeada a atividade na lousa na primeira linha. A situação problema apresentada aos alunos trazia a simulação de um garoto que fora ao Shopping Center com uma nota de R$ 100 reais para efetuar a compra de um vídeo game que custava R$ 80 reais. Os alunos, então, deveriam responder qual seria o valor do troco que o garoto deveria receber de volta.

Como assim?…Shopping Center? 100 reais? Vídeo Game?

Como esperar resultados e a participação dos alunos em proposições de trabalho que não fazem o menor sentido para eles? Falo de alunos carentes, que não sabiam sequer o valor de um pão francês comprado na padaria da esquina. De alunos impossibilitados de ir ao supermercado para comprar produtos de sua necessidade diária e, quando compravam, utilizavam de recursos assistenciais para isso. Não é estranha que a rejeição à resolução de problemas como esse dado pela professora seja uma constante em escolas que continuam por reproduzir práticas que há décadas estão presentes nas instituições de ensino. Escolas em que a reprodução de atividades retiradas de livros didáticos sem as devidas adaptações para as inúmeras realidades e diferentes culturas presentes nos diversos cantos do Brasil são ainda práticas frequentes.

Tardiff (2008) em seu livro “Saberes docentes e formação profissional” problematiza e justifica o motivo pelo qual a educação continua a reproduzir práticas semelhantes ou mesmo idênticas às de anos e anos. Segundo o autor, há uma forte tendência de os professores repetirem práticas que foram realizadas pelos seus professores quando eram alunos da educação básica. Tal justificativa se fundamenta na quantidade de horas que cada professor teve com seus professores da educação básica, ou seja, pelo menos 12 anos, o que justifica que práticas antigas sejam reproduzidas nas escolas como a que acabamos de mencionar, pela referência e modelo de professor que tiveram no passado.

Sem situações que promovam reflexões sobre a realidade mais próxima dos alunos, sem que se trabalhem com os problemas reais e de vida dos educandos, não é estranho que as broncas, as críticas aos alunos, bem como a constante e frequente presença de gritos e castigos continuem a fazer parte do cotidiano da escola fortalecendo a aversão e a evasão dos estudantes. O grande desafio deste século é promover a aprendizagem por meio daquilo que é verdadeiramente significativo para eles, ou seja, o que ouvem, o que gostam de conversar, onde gostam de estar, o que leem, o que falam… Enfim, é urgente a necessidade de se observar de perto a realidade vivida pelos alunos e fazer dela conteúdos a serem mais bem compreendidos com a mediação do professor. Observar as imprevisibilidades e fazê-las parte do planejamento do trabalho educativo, como nas palavras de Hernandez (1998), compreendo-as como parte integrante do currículo escolar.

Nesse sentido, cabe-nos uma provocação: quais têm sido as curiosidades, necessidades e realidades experienciadas por nossos alunos na atualidade para que possamos iniciar um bom e significativo projeto de ensino com nossas turmas?

Vamos pensar?