As crianças, principalmente as menores, são bastante autênticas: demonstram tudo o que sentem e têm poucos filtros para saber o que dizer ou não. Isso é uma das coisas que torna o trabalho com crianças fascinante, mas também pode torná-lo complicado. Afinal, como resolver conflitos entre dois alunos ou como agir quando um estudante desrespeita você no meio de uma aula?

Para começar essa reflexão, vamos voltar à nossa própria infância: você já ouviu de algum adulto que você era uma criança difícil? Ou que você só fazia as coisas erradas? Algum adulto já lhe repreendeu de forma violenta, quando você fez algo que não deveria ter feito? Talvez você até se lembre de situações específicas em que isso ocorreu… Talvez se lembre, também, de que não era nada agradável ouvir certas frases e ser confrontado de forma rude. 

É justamente esse o pensamento que guia a prática da comunicação não-violenta: resolver conflitos no ambiente escolar de forma pacífica, sem respostas grosseiras ou rispidez. Isso não significa passividade ou “passar panos quentes” nos problemas. É possível ser firme e resolver as questões, mas de forma positiva e propositiva, com respeito aos sentimentos de todos. Afinal, há muitas possibilidades entre bater de frente e ignorar um conflito, certo?

Nem 8, nem 80: a comunicação não-violenta é uma terceira via; uma alternativa mais produtiva à passividade ou agressividade

Comunicação não-violenta da teoria à prática

A ideia da comunicação não-violenta e seus preceitos mais importantes foram desenvolvidos pelo psicólogo norte-americano Marshall Rosenberg. Ele é autor de um dos principais livros sobre o assunto, “Comunicação Não-Violenta: Técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais”, ministrou palestras sobre o tema e trabalhou até em negociações de paz internacionais, com suas técnicas. 

Um dos pontos mais importantes da teoria de Rosenberg é entender que todas as pessoas têm necessidades e que estas, geralmente, não são conflitantes. Os conflitos surgem a partir das estratégias diferentes que cada pessoa ou grupo utiliza para atender às necessidades. Desse modo, compreende-se que a comunicação não-violenta é, antes de tudo, um exercício de empatia: aceitar que o outro também tem suas demandas e que elas merecem respeito.

A comunicação não-violenta é, antes de tudo, um exercício de empatia

Depois disso, também é importante entender que muito da violência que praticamos no dia a dia acontece sem perceber: afinal, é da natureza humana seguir padrões de defesa, recuo ou ataque quando há um conflito. A comunicação não-violenta, portanto, propõe substituir esses padrões por outros, mais positivos, utilizando a empatia como principal insumo para isso.

A ideia é prestar atenção aos seus sentimentos e também aos do outro, buscando entender quais são as emoções e necessidades que estão por trás do conflito, sem julgamentos ou juízos de valor. Desse modo, é possível encontrar um denominador comum e propor soluções mais efetivas. Em vista disso, observamos outro pilar da comunicação não-violenta: ela evita rótulos ou soluções simplistas como “essa pessoa é difícil” ou “isso é birra”. 

Nós sabemos que, em meio aos conflitos do dia a dia, esse tipo de comentário pode sair sem que você perceba ou fale por mal. Mas isso nos remete ao que dissemos alguns parágrafos atrás: a comunicação não-violenta propõe uma mudança das reações humanas de defesa, recuo ou ataque. Para que a CNV salte da teoria para a prática, é necessário fazer exercícios conscientes e constantes. Ainda bem que há meios para desenvolver essas habilidades.

Os quatro pilares da comunicação não-violenta

Há muito o que discutir sobre o assunto — tanto que há vários livros sobre ele —, mas podemos dizer que os dois pontos de partida para começar a praticar a comunicação não-violenta em sala de aula são: ter empatia e propor soluções positivas. Na medida em que você se dispõe a ouvir as outras pessoas e mantém uma postura mais positiva (em vez de uma postura de defesa/ataque), fica muito mais fácil aplicar a teoria da CNV na prática. 

Ter empatia e propor soluções positivas são essenciais para aplicar a CNV na prática

Dito isso, vamos aos quatro pilares da comunicação não-violenta.

Observação de fatos concretos

Como dissemos anteriormente, a CNV evita rótulos e juízos de valor. Sendo assim, quando você falar sobre alguma situação, faça isso de forma objetiva e precisa, se atendo aos fatos ocorridos e os separando dos julgamentos ou avaliações. Também evite dizer que alguém é isso ou aquilo, quando aquela pode ser uma situação pontual. 

Sendo assim, em vez de dizer que “essa Valentina é uma grossa!”, procure dizer algo como “a Valentina elevou o tom de voz com alguns colegas e isso causou um problema”.

“Ao combinarmos a observação com a avaliação, diminuímos a probabilidade de que outros ouçam a mensagem que desejamos lhe transmitir. Em vez disso, é provável que eles escutem como crítica e, assim, resistam ao que dizemos.” Marshall Rosenberg

Sentimentos

Outro passo muito importante para resolver conflitos de forma não-violenta é reconhecer os sentimentos que estão por trás das situações. Desse modo, voltando ao exemplo acima, procure entender porque a Valentina bateu em alguns colegas e quais sentimentos a levaram a agir daquela forma. 

Isso inclui também os sentimentos dos professores: se um aluno foi desrespeitoso com você em sala de aula, exponha como aquilo lhe afeta. Isso dá a oportunidade para que o aluno também exerça a empatia dele com você. 

Necessidades

As necessidades são a raiz de nossos sentimentos. E entender quais necessidades estão ou não sendo atendidas (minhas e do outro) e compartilhá-las facilitam o processo de empatia. Assim, entendendo quais necessidades existem, fica mais fácil encontrar maneiras de satisfazê-las.

Além disso, entender nossas necessidades, estejam elas sendo atendidas ou não, nos ajuda a lembrar de algo muito importante: o que eu estou sentindo – que tem como raiz uma necessidade – é gerado por uma necessidade que eu tenho. Portanto, é responsabilidade única e exclusivamente minha. Por isso, o que fica aqui é a lembrança para não terceirizar os sentimentos. Exemplo: eu não estou triste porque você me xingou, eu estou triste porque EU gostaria de me sentir mais respeitado (identificando a necessidade de respeito).

Pedido

Seguindo o pensamento de evitar frases vagas, também é importante fazer um pedido claro para resolução do conflito. Ou seja, expor o que você deseja de forma prática. Mas atenção: expor o que você deseja sem fazer uma exigência agressiva. 

Um exemplo é trocar frases como “essa nota é muito baixa!” por propostas como “eu gostaria que você tivesse um desempenho melhor nas tarefas escolares. Há algo que eu possa fazer para ajudar?”. Outro exemplo é, em vez de simplesmente gritar para que um aluno que está fazendo bagunça fique quieto, buscar fazer com que ele entenda o porquê de você precisar da cooperação dele, fazendo um pedido genuíno como: “você poderia parar de conversar durante a minha fala? Isso dificulta a minha explicação”.

Parece uma mudança de perspectiva simples, mas todos os detalhes importam quando estamos falando de comunicação não-violenta. 

Aplicando a comunicação não-violenta na prática

Esses quatro pilares da comunicação não-violenta podem ser aplicados em apenas uma frase, dependendo da situação, como podemos ver no exemplo a seguir:

Quando você fica mexendo no celular durante a aula (observação) eu me sinto triste (sentimento), pois preparei essa atividade com muito carinho e esforço para que todes possam aprender (necessidade). Você poderia deixar de mexer no celular e se concentrar em realizar a atividade? (pedido)“.

Esse é apenas um exemplo simples de como podemos construir falas mais propositivas para lidar com as situações na sala de aula. Você precisará exercitar sua empatia e criatividade para pensar em novas formas de lidar com cada conflito que se apresentar. A questão é evitar as armadilhas da agressividade e das respostas simplistas, como falamos desde o início. 

Para terminar, se você quer se aprofundar mais no assunto, há uma série de vídeos incríveis no canal do YouTube da dinamarquesa Kirsten Kristensen, uma das principais pesquisadoras da comunicação não-violenta no mundo. Assista ao primeiro vídeo, a seguir, e fique de olho nas redes do Transformando.com.vc para mais dicas de como agir em sala de aula.

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